Em Caná da Galileia...


Uma composição sobre as férias e o Dia da Família

Aula de Inglês, pouco depois da Páscoa.

“Meninos, hoje queria que escrevessem sobre as férias da Páscoa. Para tornarem a vossa composição interessante, pensem nos cinco sentidos: o que viram, o que escutaram, o que fizeram, o que comeram, etc. Vamos ao trabalho.”

Passados alguns minutos de silêncio, comecei a circular pelas carteiras para ajudar onde fosse preciso, corrigindo uma frase aqui, explicando um verbo ali… Uma menina de grandes olhos azuis perguntou-me: “Professora, como é que se diz: Brinquei com os netos da namorada do meu pai?”

Quando comecei a trabalhar, há vinte anos atrás, gostava de pedir aos alunos que fizessem a árvore genealógica da sua família, quando estudávamos o tema. Era geralmente um trabalho interessante, feito em sala de aula (eu não mando trabalhos de casa). Mas com o passar do tempo, fui-me apercebendo que esta tarefa se tornava cada vez mais difícil, com a multiplicação de meios-irmãos, padrastos e madrastas e respetivos filhos, avós a triplicar, etc. Embora a árvore genealógica, em teoria, não tenha muito a saber, porque pai é sempre pai, mãe é sempre mãe, na cabeça dos meninos é um assunto bastante mais complicado. Hoje, é tarefa que não peço a ninguém. Desisti.

A primeira “bilha” das Famílias de Caná fala na comunhão familiar e na comunhão com Deus como espelho uma da outra. Ser cristão é viver em comunhão, segundo o testamento espiritual de Jesus, guardado por S. João:

Que todos sejam um como Tu e Eu, ó Pai, somos Um! (Jo 17, 21)

Satanás foi, desde o princípio, considerado pai da mentira e da divisão. “Dividir para reinar” foi e continua a ser o seu lema. Um sinal claro da influência de Satanás nos nossos tempos é, por isso, o crescimento enorme do número de divórcios.

A Irmã Lúcia profetizou esta batalha entre Satanás e o Senhor, numa extensa carta dirigia ao Cardeal Cafarra, que tinha sido convidado por S. João Paulo II para trabalhar no Instituto Pontifício para os Estudos do Matrimónio e da Família e escrevera à Irmã Lúcia a pedir orações. Entre outras coisas, Lúcia afirma:

A batalha final entre o Senhor e o reino de Satanás será a respeito do Matrimónio e da Família. Não temam, porque qualquer pessoa que atue a favor da santidade do Matrimónio e da Família sempre será combatida e enfrentada em todas as formas, porque este é o ponto decisivo. Entretanto, Nossa Senhora já esmagou a sua cabeça”.

Comprometer-se como Família de Caná significa defender a família de todas as formas de divisão, a começar pelo divórcio.

Pode, então, uma Família de Caná estar a viver uma segunda união, ou pode comprometer-se com o Movimento uma mãe ou um pai divorciados?

Claro que sim. Falamos de uma segunda união com vários anos, estável, que em princípio aconteceu muito depois da destruição da família anterior. A consciência da irregularidade da sua situação esvazia as pessoas de orgulho e enche-as de humildade diante de Deus, esperando na sua  misericórdia. Ah, as graças que a humildade alcança! Para Deus, a humildade vem sempre à frente da perfeição.

Estas famílias, como talvez todos nós em algum ponto, gostariam de poder mudar o seu passado, evitando os erros cometidos. Ao situar-nos no tempo, Deus retirou-nos a possibilidade de voltar atrás, mas simultaneamente ofereceu-nos algo muito melhor: a possibilidade de reparar o mal feito com um bem maior, porque Deus até do mal tira o bem, segundo diz a Escritura. Assim, muitas destas famílias descobriram o verdadeiro amor divino em plena segunda união. Que grande graça o Senhor lhes concedeu! A sua gratidão pode transformar-se  num belíssimo trabalho em prol da unidade familiar e da defesa do matrimónio cristão.

Hoje é Dia da Família. As Famílias de Caná existem porque o mundo precisa do seu testemunho de unidade familiar. As Famílias de Caná gostam, assim, de partilhar o espaço e o tempo familiares, para se encontrarem em família muitas e muitas vezes. É por isso que a refeição familiar, símbolo da Aliança de Deus com o seu povo, manifestada em Caná, é para nós um momento de festa, sem a interferência da televisão ou dos telemóveis, que ficam a descansar noutra divisão da casa…

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