Aleppo e eu

“Não há palavras para descrever o horror que se vive em Aleppo”, dizia o Niall à volta da mesa de jantar, quando nos reunimos para a nossa refeição familiar. “Daqui a uns anos, a nossa geração será julgada pelo seu esquecimento. Pela sua inatividade. Por não se lembrar. Aconteceu a mesma coisa no genocídio do Ruanda: só depois do conflito acabar é que a comunidade internacional interveio, simplesmente para declarar que o que tinha acontecido se chamava genocídio. Em Aleppo acontece novo genocídio, e de novo, a comunidade internacional intervirá no fim, para afirmar que sim, que foi um genocídio.”(…)

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Um copo de água

No início deste ano letivo, e no meio do caos que são sempre os tempos de adaptação a novas rotinas, horários e trabalhos, adotei um ritual muito especial, que vou partilhar convosco, nem que seja para vos fazer sorrir: quando me sinto mais irritada, nervosa ou inquieta, vou à cozinha, e bebo devagar um copo de água de um certo garrafão, que as crianças já sabem ser para mim… A ideia foi do Niall. Um dia, ao fazer as compras da semana, reparou nos garrafões de água do Gerês, e recordou-se de ter ouvido dizer, na pequena aldeia onde passámos(…)

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Memórias da Irmã Lúcia

Um destes dias, a Cláudia Duarte Sousa, mãe de uma belíssima Família de Caná que já deu o seu testemunho aqui, telefonou-me, muito entusiasmada, a dar notícias da sua caminhada familiar, o que ela costuma fazer com regularidade. E entre muitas coisas, disse-me que tinham decidido ocupar parte do seu Tempo de Família com a leitura das Memórias da Irmã Lúcia. Para sua grande surpresa, contou-me a Cláudia, era difícil saber quem estava a gostar mais da leitura, se os pais, se as filhas. “Grande ideia”, pensei para comigo. O meu livro das Memórias da Irmã Lúcia é muito velhinho,(…)

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A fonte, a minha vontade e a vontade de Deus

Serra do Gerês. Estávamos quase, quase no último dia das nossas férias. A tranquilidade daqueles dias no cimo da montanha fazia eco dentro de mim, e eu desejava intensamente alguns minutos a sós com o Senhor, para O louvar em voz alta e Lhe agradecer tanta bênção. Lá em baixo, a fonte cantava alegremente, derramando sem cessar água sobre o tanque e, a partir dele, sobre os campos da aldeia. “Já sei o que vou fazer”, anunciei ao Niall. “Vou tirar alguns minutos só para mim, para ficar a sós com Jesus. Vou pegar num copo de água e descer(…)

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No cimo da montanha

Este ano, as nossas férias foram no cimo da montanha, lá onde as horas passam devagar; onde é preciso dar prioridade aos rebanhos de cabras, vacas e cavalos que pastam, desacompanhados, durante o verão inteiro e se atravessam diante de nós como senhores absolutos da montanha; onde os cumes exercem um poder de atração tão grande, que nenhum esforço é demasiado para os alcançarmos; onde o silêncio é como uma muralha à nossa volta, separando-nos do mundo; onde nos descobrimos sós, longe das multidões, e ao mesmo tempo, de uma forma única, privilegiada, escondidos no abraço omnipresente de Deus. O(…)

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Tempo de família

Caminhamos em família, algures na serra do Gerês. Queremos chegar ao cimo da montanha, mas quanto mais caminhamos, mais o cimo se afasta de nós. É preciso estugar o passo. As manadas e os rebanhos que encontramos pelo caminho assustam os mais novos (e os mais velhos também, que os chifres das vacas barrosãs vistos de perto são um bocadinho assustadores) e, por precaução, precisamos de refazer a rota. Há, realmente, mais vacas e cabras pastando soltas na montanha do que pessoas. Voltamos para trás. Estamos perdidos! Os mais velhos tomam os mais novos às cavalitas. Quando um começa a(…)

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Não passeis adiante

A primeira leitura da missa de hoje, domingo XVI do Tempo Comum, é uma das minhas passagens preferidas da vida de Abraão. Quantos ensinamentos neste curto episódio do nosso pai na fé! Encontramo-la em Gen 18, 1-10. Abraão estava sentado à entrada da sua tenda, no maior calor do dia… Ontem, a nossa família foi ao Ribatejo visitar a família Batista, que vive numa pequenina aldeia no meio de uma imensa planície, onde os campos de arroz se estendem até ao horizonte, os touros passeiam nos campos e as cegonhas fazem ninhos mesmo diante dos nossos olhos. O dia não(…)

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