Testemunhos


A mesma dignidade

Testemunho da Isabel Marantes:

Dia 13 de Maio… acordo cheia de alegria e penso: “Dia de Nossa Senhora de Fátima e dia de contar aos meninos a grande surpresa!”

A Leonor já há mais de dois anos que rezava à Irmã Lúcia para que tivéssemos mais um bebé cá em casa (ela pedia especificamente uma irmã!). Tinha feito há cerca de um mês um gorro de bebé e tinha-o colocado bem perto da Irmã Lúcia, como que pedindo concretamente para que este gorro pudesse ser usado pela sua irmã no próximo Inverno…

Finalmente, eu estava grávida!

No dia 13 à noite coloquei uma pequena imagem de uma ecografia que tinha feito por volta das 5-6 semanas dentro do gorro que a Leonor tinha feito e fizémos uma espécie de caça ao tesouro. Quando os meninos encontraram o seu “tesouro”, a alegria e os pulinhos foram tantos que o difícil foi dormirem sossegados nessa noite. Explicámos que vimos o seu coração a bater…

No dia seguinte, estava marcada outra ecografia, a das 8-9 semanas.

Quando a ecografia começou, a pessoa que a estava a fazer começou a mudar muitas vezes a sonda do ecógrafo de posição, como se estivesse à procura de alguma coisa que não encontrava. Pensei: “Esta pessoa ainda deve estar no início da profissão. Vê-se bem que tem pouca experiência”…

Mas a minha conclusão não podia estar mais errada e eu e o Luís percebemos logo isso quando a vimos escrever no ecrã: “No FH”…nós sabíamos o que isso queria dizer: “No Fetal Heartbeat” (sem batimento cardíaco fetal)…

A avalanche de emoções que se seguiu sabe-o bem quem já passou por uma experiência semelhante e penso que todos vocês conseguem imaginar. Mas, naquele momento, a nossa maior preocupação era: “Como vão reagir os nossos filhos? Como lhe vamos dizer?”…

Quando chegámos a casa contámos aos meninos, eles confortaram-nos a nós muito mais do que nós os confortámos a eles, com toda a simplicidade e clareza com que as crianças entendem os mistérios da vida e da morte.

Passado pouco tempo recebo no meu telemóvel uma mensagem de uma amiga que já sabia do sucedido e  que me perguntou: “Já pensaram o que vão fazer ao bebé?”.

O quanto agradeço a esta amiga a lucidez desta pergunta.

Naquelas duas horas após a ecografia, eu e o Luís sentíamo-nos como que a “flutuar”, com emoções atrás de emoções que nem nos deixavam pensar com clareza, como é normal.

Mas esta pergunta colocou-me de novo com os pés no chão.

Havia uma forte angústia dentro de mim… eu sabia o procedimento que provavelmente seria feito nos dias seguintes, e angustiava-me que o nosso bebé fosse depois tratado como lixo hospitalar…

Mas era a primeira vez que estava a viver um aborto espontâneo e não sabia quais eram as “regras”, nem da Igreja, nem dos Hospitais.

O baptismo do bebé não se colocava no nosso caso, porque o baptismo faz-se num ser humano que vive.

E o funeral? Seria possível?

O Luís escreveu a um sacerdote nosso amigo, eu fui falar com o sacerdote da nossa paróquia. Infelizmente, a resposta da paróquia foi bastante vaga, mas nós não desistimos de procurar as respostas e foi como que um bálsamo de paz para nós quando descobrimos que, no Canadá, nos cemitérios católicos, existe um lugar próprio para colocar os restos mortais das crianças que não chegaram a nascer…

No dia seguinte, na consulta de aconselhamento no hospital sobre o procedimento a realizar no nosso caso, a enfermeira que falou connosco não mencionou sequer a hipótese de nós podermos ficar com os restos mortais do bebé. Quando nós a questionámos sobre o assunto, ela disse que sim, que era possível, mas que era um pedido pouco frequente e que tinha de ver onde guardavam o formulário que teríamos de preencher.

A boa notícia é que o formulário apareceu! Era um formulário muito bem feito e tinha uma frase no final que nos comoveu intensamente. Dizia que antes de entregar os restos mortais do bebé, ele teria de ser sujeito a alguns estudos, mas que durante todo esse processo, nos garantiriam que o embrião seria tratado com toda a sua dignidade.

Ah… dignidade… era tudo o que nós queríamos… tratar este pequeno embrião de 8-9 semanas, de cerca de 2,2cm, com a mesma dignidade como trataríamos qualquer outro ser humano…

Quando nos entregaram o corpo do nosso pequeno embrião fomos para o cemitério. Os meninos quiseram chamar-lhe Beanie, porque eu o tratava por “o nosso feijãozinho”- bean-.

Depois de uma pequena cerimónia com um sacerdote amigo, o corpo do nosso Beanie ficou naquele lugar sagrado onde tantos outros bebés que não chegaram a nascer tinham também encontrado o seu último repouso.

Tive uma inundação de paz dentro de mim… a dignidade do nosso “feijãozinho” foi preservada até ao fim!

Enterrar os mortos é uma obra de misericórdia e é um direito que qualquer pai (e qualquer filho) tem, independentemente da idade gestacional.

Sei que há situações em que os abortos espontâneos começam em casa sem aviso prévio e em que já não é possível termos o corpo do bebé connosco. Também sei de muitas situações em que tudo acontece tão rápido que só quando tudo passou é que os pais se começam a colocar estas questões, sem ninguém nunca lhes ter falado deste direito que têm, e depois ficam com sentimentos de culpa.

Evidentemente que nestas situações a consciência dos pais deve estar perfeitamente tranquila. A misericórdia de Deus já sabemos que é infinita. E sabemos o quanto Ele ama as crianças.

E a razão pela qual conto este testemunho é exactamente porque senti, durante todo este processo, que a maior parte das pessoas que passa por estas situações, sobretudo se é a primeira vez, está confusa e muitas vezes as paróquias e os hospitais, não dão respostas muito claras, numa altura em que tudo acontece tão rapidamente e dolorosamente para os pais, que precisam de orientação.

É importante nós católicos estarmos informados sobre o que fazer nestas situações, é importante que as paróquias estejam informadas e é fundamental que os hospitais tenham informação clara sobre esta possibilidade que, volto a dizer,  é um direito de qualquer pai e de qualquer filho. E se isso não existe, temos de escrever à Comissão de Ética de cada hospital a levantar estas questões.

E porque não, nas nossas paróquias, informarmos os noivos sobre o que fazer nestas situações tão frequentes nos Cursos de preparação para o Matrimónio, como uma colega me disse que faziam aqui numa paróquia? E porque não nós, profissionais de saúde católicos, darmos o nosso contributo ao nível dos hospitais e ao nível das nossas paróquias nestas questões?

Não podemos defender que a vida humana existe desde o momento da concepção e depois aceitarmos que uma paróquia ou um hospital sejam tão vagos nas respostas que dão a estas situações dizendo: “Não se preocupe mais com isso, que ainda vai ficar mais traumatizada”, como nos chegaram a responder a nós.

Porque uma vida humana do tamanho de um “feijãozinho”, uma vida humana com uns vigorosos e saudáveis 170cm de altura, uma vida humana acamada, doente, curvada pela idade avançada e até já sem memória… todas elas, nunca nos esqueçamos, têm a mesma dignidade…

Reza por nós, meu pequeno anjo…

10 Comments

  1. Querida Isabel, que testemunho maravilhoso! Ao ver as imagens, começo logo por ver a diferença que faz os cemitérios serem jardins onde sabe bem passear… E mais um passo em frente, nos cemitérios haver espaço para os que não chegaram a nascer! Depois, penso nessa coisa de haver um formulário, mesmo que escondido… Não sei se por cá há disso, mas a mim, ninguém nunca me falou dele! E como diz, nos momentos em que tudo se precipita, é preciso que haja quem nos fale das coisas, quem nos ajude a manter a lucidez. Tanto trabalho a fazer, para que a vida humana seja realmente tratada com dignidade desde o primeiro instante até ao último!
    Estou cada vez mais convencida de que o que realmente precisamos é de uma forte pastoral familiar, feita por famílias em colaboração com os seus párocos, e que possa de facto trabalhar com as famílias nos mais variados campos da vida e da fé, nos previsíveis e nos imprevisíveis, do planeamento familiar à catequese, da educação dos filhos à unidade conjugal, da doença à morte. Porque só nos lembramos destes temas dolorosos quando passamos por eles, e nesses momentos, pode já ser tarde… São tão, tão variados os campos em que nós, Famílias de Caná, podemos e devemos lançar a mão ao arado! Um grande beijinho a todos, em especial para si! Teresa

    • Isabel Marantes

      Pois é, Teresa, há mesmo muito para fazer…e muito para perguntar!
      Estou a tentar saber quais são as respostas que os Hospitais em Portugal dão nestas situações. Sei que não é o que acontece todos os dias, mas não haverá algum formulário escondido numa gaveta?…
      Se eu conseguir saber essa informação, partilharei no site, porque gostava muito que todos os pais tivessem a oportunidade de sentir a paz que, no final, eu e o Luís sentimos.
      Obrigada por estar sempre presente, Teresa!

  2. Bom dia Isabel! Não me parece que isso seja possível em Portugal!!! Infelizmente passei por essa situação duas vezes, e custa muito fazer o “luto” sem ter um local onde deixar flores, e chorar… E o que me deixou impressionada foi pensar o que terão feito ao meu bebé… Porque para mim já era um bebé… E não tinha ainda filhos que me pudessem consolar… Foram tempos difíceis em que bati mesmo no fundo… Infelizmente não soube ver esses acontecimentos pelos olhos da fé e caí no desespero.
    Desculpem o desabafo…
    Embora não vos conheça pessoalmente, quero enviar a minha compreensão e solidariedade pelos momentos que estão a viver.

    • Isabel Marantes

      Querida Sara, obrigada pelas suas palavras.
      E tem toda a razão quando diz que o luto é muito mais difícil quando não vemos a dignidade do nosso bebé ser respeitada, por falta de formação de quem nos poderia orientar nestas alturas em que tudo acontece tão rapidamente.
      Mas não pense que isso só acontece em Portugal. Quantas mães daqui, dos colégios dos nossos filhos, e que já passaram por estas situações, me disseram que nunca tinham ouvido falar nem de formulário, nem da possibilidade de fazer um funeral num bebé de 9 semanas…e a internet está cheia de blogs (americanos e não só) em que mães que perderam os seus filhos durante a gravidez, contam que não foram minimamente informadas e querem deixar o seu testemunho a outras mães para que não passem pelo mesmo. Penso que esta falta de (in)formação é global.
      A amiga que me enviou a mensagem a perguntar se já tínhamos
      pensado o que faríamos ao bebé, fê-lo porque desde há 10 anos que sofre e que se culpa por não ter feito com o bebé que ela perdeu durante a gravidez o que ela hoje sabe que poderia ter feito.
      Uma pergunta que aqui que se levanta é se em Portugal existe algum tipo de plano relativamente à colocação dos restos mortais dos bebés perdidos durante a gravidez nos cemitérios.
      Talvez algum sacerdote que leia o site nos consiga informar!
      Um abraço para si,
      Isabel

  3. Catarina Ramos Tomás

    Obrigada Isabel e Luís!
    Não conseguindo imaginar o que se sente, agradeço a partilha e a simplicidade do vosso testemunho.
    E quando no dia 3 nos desafiava a partilhar com a Teresa o impacto da descoberta das Famílias de Caná na nossa vida, é isto, a capacidade de olhar cada dia e cada acontecimento à luz da fé e a partilha de informação.
    Porque é possível encontrar sentido na morte e no turbilhão das nossas vidas…
    (mesmo que pareçam não pertencer a este Mundo… e seja preciso encontrar o formulário que ninguém pede e que está guardado).

    • Isabel Marantes

      Obrigada, Catarina!
      E fez muito bem em relembrar o desafio para o dia 3. Ainda vou escrever um post a relembrar. É já para a semana!
      Um beijinho,
      Isabel

  4. Olá Isabel, Teresa e a todos. Obrigada pelas palavras. Infelizmente o mundo está formatado para o prático e as relações humanas são pouco valorizadas. A dignidade humana e o dom da vida são pouco reconhecidos e quando passamos por uma situação destas não conhecemos os nossos direitos e nem temos condições psicológicas para atuar. Em 2003 tive um lindo menino com 23 semanas num hospital privado que não tinha condições para um grande prematuro. Nasceu e morreu sem que eu tivesse o direito de lhe pegar, de o baptizar, nem o meu marido teve autorização para assistir ao parto. Drogaram-me para dormir depois de eu ter recusado. Levaram-no para outro hospital sem sequer nos informarem. Para saber onde estava o meu bebé tive que recorrer a um amigo médico. Após as análises habituais, o meu filho foi “simplesmente ” tratado como lixo hospitalar contaminado. Não teve direito a funeral. Nessa altura os bebés de baixo peso não tinham direito a funeral. Muita coisa mudou nos últimos anos mas muitas mais têm que mudar. Uma família fica destroçada e não tem capacidade psicológica para tomar decisões. Seja um bebé de termo, prematuro ou com dias de gestação tem que haver respeito por aquele ser humano, pela mãe e pela família. Um beijinho a todas as famílias e um muito especial para quem já perdeu um filho. Que Deus nos abençoe a todos.

    • Isabel Marantes

      Querida Mónica,
      Obrigada pela partilha…
      Que aperto que sinto quando leio histórias como a sua… não pode ser…tanta coisa tão mal feita no que me conta que eu nem quero começar aqui a falar…no vosso caso, não foi “só” a dignidade do vosso filho que não foi respeitada…
      Mas sabe, Mónica, sinto mesmo que temos de ser nós, que já passamos por estas dúvidas e por esta dor a “lançar a mão ao arado”, como diz a Teresa.
      Temos de “bater às portas”… temos de perguntar… temos de saber… e temos de ajudar a construir os meios para que nenhuma mãe, nenhum pai, nenhum filho e nenhuma família passe por aquilo que a Mónica e a sua família passaram.
      Um abraço muito forte para si e para todas as famílias que lêem este site e que já passaram por situações semelhantes.
      Um beijinho,
      Isabel

  5. Catarina Silva

    Obrigado pelo vosso testemunho! Pela coragem de expor a vossa dor…São sempre testemunhos que, a mim pessoalmente, me perturbam muito.
    Tenho a certeza que poderão ajudar muitos casais que se sentem perdidos… É como a Teresa diz: Há tanto para fazer nos mais variados campos da vida e da fé…

    • Isabel Marantes

      É isso mesmo, Catarina, nós temos de nos ajudar uns aos outros, ainda mais quando estamos em Família (de Caná!).
      Um beijinho e obrigada,
      Isabel

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