Testemunhos


Batismo, privado ou em comunidade?

Testemunho da família Miranda Santos

A chegada da nossa família à atual paroquia coincidiu com a altura do nascimento do António, o nosso 2º filho. Por isso a primeira vez que fomos falar com o pároco foi para combinar o seu Batismo. O nosso pároco foi muito acolhedor e tratou logo de tudo o que era necessário para agilizar o Batismo, mas no momento de falar da hora da cerimónia percebemos que estava a pensar realizá-lo no final da Eucaristia paroquial. Imediatamente questionámos se o Batismo não poderia ser durante a Eucaristia, e ele assim o consentiu.

De facto, o Batismo do nosso 1º filho já tinha sido durante a Eucaristia, numa paróquia já nossa familiar, e não concebíamos que agora fosse de outra forma. E assim foi também desde então até agora, ao baptismo do 5º, o Joaquim. Todos tiveram a graça de iniciar a sua vida sacramental no meio da celebração semanal da comunidade paroquial. Diz-nos o Catecismo:

Pelo Baptismo somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus: tornamo-nos membros de Cristo e somos incorporados na Igreja e tornados participantes na sua missão. (CIC 1213)

Esta Igreja, que é o Corpo de Cristo do qual nos tornamos membros pelo Batismo, não é uma realidade abstrata espiritual. Esta Igreja é composta de todos os restantes membros que nela já foram incorporados, portanto por todos os batizados. Esta Igreja existe de forma concreta e próxima em qualquer parte do mundo, presente na comunidade paroquial. E esta comunidade tem encontros regulares, sendo o mais certo e importante a Eucaristia dominical.

Que sentido fará incorporar um novo membro nesta Igreja mas fazendo-o sem ter o resto do corpo o mais completo possível? Ou seja, que sentido fará que um novo membro se torne parte desta comunidade sem ser no momento em que a comunidade está reunida, durante a Eucaristia dominical? Quantas vezes temos visto, aqui e noutras paróquias, as crianças que vão receber o batismo e as suas famílias à porta da igreja à espera que a Eucaristia termine e a comunidade saia toda da igreja para então eles entrarem e fazerem a sua “festa privada”.

É por isso que um gesto que o nosso pároco fez sempre nos quatro Batismos foi por nós muito apreciado, bem como por toda a comunidade. Embora não esteja previsto no ritual, a seguir ao Batismo o sacerdote, pastor da comunidade, pega o batizado nos seus braços e apresenta a toda a assembleia o seu novo membro.

No Batismo do Joaquim pedimos ao nosso pároco que o ritual do Batismo começasse com o acolhimento à porta da igreja. Também este é um gesto simbólico deste sacramento que é a entrada na Igreja e, também nos diz o catecismo, é “o pórtico da vida no Espírito e a porta que dá acesso aos outros sacramentos”.

E também este gesto se reveste de significado quando dentro das portas da igreja, que atravessamos, está a Igreja, representada pela comunidade paroquial, à nossa espera para acolher o novo membro que chega. É perante esta comunidade que o pastor nos questiona e perante ela que manifestamos publicamente o que queremos para o nosso filho.

Na época em que vivemos, e principalmente nos meios mais urbanos, esta celebração do Batismo em comunidade é uma necessidade vital para a Igreja. Dificilmente se constrói uma comunidade com o espírito individualista e privativo que hoje tanto existe. Com frequência as pessoas vivem o seu dia-a-dia isoladas nas suas rotinas, protegidas de qualquer invasão indesejada nas suas vidas. Ao fim de semana utilizam os serviços da paróquia numa lógica consumista em que cada um se serve do que lhe dá jeito sem ter de se relacionar necessariamente com o outro.

Mas não é no meu grupo de amigos ou na minha família alargada que eu encontro o rosto de Jesus na sua completude. Só na comunidade eu consigo encontrar todas as faces deste Corpo. Dizia-nos Jesus no evangelho do domingo anterior ao Batismo do Joaquim:

 Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles por sua vez te convidem e assim serás retribuído. Mas, quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos. (Lc 14, 13-14)

Na minha celebração de Batismo privativa provavelmente não haverá pobres nem aleijados nem coxos, só haverá aqueles que me vão trazer uma prenda e convidar para o Batismo dos seus filhos. Mas na celebração do Batismo em comunidade, aí sim, estão todos.

Um pouco movidos por estas palavras de Jesus e pelo nosso desejo de partilhar com toda a comunidade a alegria da vida nova para a qual o Joaquim nasceu pelo Batismo, decidimos levar para a porta da igreja o bolo de Batismo e partilhá-lo com toda a comunidade. E assim fizemos, no final da Eucaristia, à porta da igreja, cantámos o Hino de Caná e todos comeram uma fatia de Bolo!

5 Comments

  1. Meu querido Joaquim,
    Em resposta ao post da tua familia, cumpre-nos dizer… howwwww!!!
    Fomos escolhidos para teus padrinhos, nem sabemos bem como. Foi a primeira vez que ambos fomos convidados para padrinhos, sabias? Ficámos muito felizes por, de certa forma, fazer “mais um bocadinho” parte desta família que para nós é rosto claro do Cristo Ressuscitado.
    Partilhámos também com a comunidade o batizado dos nossos filhos, na Eucaristia da catequese a que sempre vamos, e ainda hoje são recordados por todos os meninos que nos acompanham. Especialmente a parte em que o Padre lhes pegou ao colo e apresentou à comunidade, que a Constança compara ao filme do rei Leão, onde o Simba – que vai ser o futuro rei – é apresentado à comunidade.
    É exactamente isso o que se pretende, que a criança faça a partir daquele momento parte dos Filhos de Deus, desta comunidade onde crescerá, onde viverá cada etapa do seu caminho de descoberta deste Cristo que nos abraça a cada momento da nossa vida. Como o Simba, ambos são desde o dia do seu batismo herdeiros deste Reino que o Pai nos confiou!
    No dia de nosso casamento, as primeiras pessoas a cumprimentar-nos foram as senhoras que rezam o terço na igreja a seguir à eucaristia desde que me lembro de ser gente. São também elas que hoje muitas vezes nos dizem que os nossos filhos são um pouco seus netos também. Acrescentam sempre um “não levem a mal”. Mas é claro que não levamos a mal! Era mesmo isso que esperamos quando os batizamos na Missa do costume, quando os levamos a essa mesma Missa do costume, mas também quando os nossos filhos começam a Salve Rainha a meio do segundo mistério do terço, quando perturbamos a concentração de toda a gente na homilia porque eles se começam a rir com qualquer coisa, ou quando o cantar do aleluia do nosso filho ecoa pela Igreja num momento qualquer da Eucaristia que não é a Aclamação do Evangelho.
    Obrigada, mais uma vez Sónia e Joâo, pelo vosso convite, pelo Vosso testemunho enquanto família e, claro, por terem feito da nossa filha a menina mais feliz do mundo por sermos padrinhos do Joaquim.

    • Sónia Santos

      Delicadezas, simpatias entre vizinhos de aldeia (de Caná)… Nós é que agradecemos o vosso sim!

      Que bonita essa experiência de fazer o percurso dos sacramentos sempre acompanhados pelo ritmo de oração das mesmas senhoras que rezam o terço no fim da Eucaristia! Essa, sim, uma imagem clara de Cristo ressuscitado que está sempre presente, que nos acompanha em cada passo.

      Às senhoras que tantas vezes nos felicitam no fim da missa (na nossa paróquia ou noutra) pelos filhos que temos sempre peço que se lembrem de nós nas suas orações. Conforta-me saber que dentro da lgreja a que pertencemos circula esta mútua intenção de oração. Sabe Deus as Graças que daí vêm. Talvez no Céu venhamos a descobrir tanto do que “secretamente” a Igreja orante, na comunidade paroquial a que pertencemos e nas que visitamos pontualmente, fez por nós!

      Querida pequena Constança, és mesmo muito querida!

      • Estela e Luís

        Sônia, é linda a descrição do batismo do vosso filho Joaquim! Os melhores votos de felicidade cristã e longa vida para o bebé e toda a família!

  2. antónio assunção

    Sou sacerdote há vários anos e sempre motivei para a celebração do Batismo (mesmo quando foram vários) quando está reunida a “comunidade paroquial” Nem sempre consegui concretizar essa motivação… Mas mesmo quando o tenho de fazer com a pequena comunidade da “família de sangue” sempre convido a “comunidade paroquial” a participar… e a ideia do bolo ficou-me nos olhos e no coração… Quem sabe se para a próxima?!…
    Também esta pode ser uma das “pequenas coisas” de que nos fala o evangelho do próximo domingo

  3. Isabel Marantes

    Querido Joaquim,
    Que lindo foi o teu Batismo em Comunidade! E como todos foram convidados, sentimos que nós, os teus amigos do Canadá, de alguma forma também pudemos estar presentes. Agradeço aos teus pais esta partilha que nos permitiu viver um bocadinho contigo esta grande festa que foi o teu batismo.
    Foi tudo feito com o significado profundo que este sacramento invoca.
    Que a tua família continue a dar sempre estes belos testemunhos!
    Um abraço grande para todos, hoje em especial para ti,
    Isabel

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