Testemunhos


Começar por ser apenas um…

Testemunho do João e da  Marta Antunes:

Como algumas vezes a Teresa tem referido (e bem), alguns de nós estão ausentes muitas vezes da partilha das Famílias de Caná, que para nosso bem poderia ser mais regular. Falo da partilha em presença ou em contacto e é da nossa família que vos quero falar hoje. A nossa Família de Caná é constituída por dois membros, eu e o meu marido João. E o facto de não termos filhos será provavelmente um dos motivos pelos quais possamos não fazer o esforço necessário a tornar mais frequente esta partilha. Assim, aqui estamos a dar este testemunho hoje por duas razões: tentar mostrar como nós tentamos ser Família de Caná e porque é tão importante insistir em lembrar e treinar as bilhas de Caná, deixando-nos seguir pelo caminho que Deus nos dá rumo à santidade em casal (mesmo sem filhos).

As Famílias de Caná surgiram na nossa vida quando estávamos já com as antenas no ar a tentar perceber o que Deus pretendia de nós como casal e como família. Nessa altura, ainda travávamos a luta de tentar ter filhos. Foi uma luta longa, com muitas esperanças e desilusões ao longo da caminhada. Mas o Senhor levou-nos ao colo, um em cada braço, entregando-nos um no colo do outro para que suportássemos mais facilmente a enorme e cansativa quantidade de perguntas, opiniões e conselhos que tantas pessoas nos davam (algumas delas porque nos querem bem) e para que descobríssemos um no outro o que significaria para nós não ser pais (ou não ter filhos).

Com as Famílias de Caná, sendo nós dois, três, dez ou mesmo um, aprendemos que não há outra forma de viver a vida a não ser em constante comunhão com Jesus – Nós, Jesus. Aprendemos que podemos dar muitas voltas, tentar rezar muito, ir a peregrinações, ir à igreja quando esta está vazia, ler para tentar adquirir algum conhecimento sobre a nossa religião, pedir ajuda a Deus quando estamos em aflição, mas de pouco vale se a nossa mente e o nosso coração não estiverem em franca sintonia com o Pai. Dou estes exemplos de ações pois eram algumas das que eu fazia e que, apesar de me ajudarem, aproximando-me do Senhor, e, em última análise, me trazerem até aqui hoje, não chegavam.

E foi por isso que, apesar de muito a medo e com muita vontade de fazer as coisas à “nossa maneira”, fomos reajustando os nossos hábitos, alterando alguns e reforçando outros. O nosso canto de oração deixou de ser tão estático e a oração do terço assim como a leitura das escrituras passou a ganhar existência cá em casa. Estejamos onde quer que seja, fazemos por ir à celebração da Missa Dominical e pouco a pouco lá nos fomos inserindo nalguns dos serviços da nossa paróquia. Estes são alguns exemplos do que tentamos pôr em prática no nosso quotidiano, mas o mais difícil persiste.

Como podemos ser uma Família de Caná se somos apenas um casal? Se tantos dos ensinamentos são para famílias com filhos e nós não podemos pôr isso em prática? Como fazemos por estar a par da atividade e da agenda deste Movimento Católico e de nos sentirmos parte do mesmo, se não sabemos o que fazer com alguns dos ensinamentos que aqui se expõem para as famílias?

A resposta pode não ser simples, mas é sobretudo baseada no amor e na confiança de que tudo o que vem do Espírito Santo e chega até nós tem a possibilidade de ser adaptado e aplicado na nossa vida, na nossa realidade, seja ela qual for. Não esqueçamos nunca, no entanto, que cada um de nós tem de fazer a sua parte para deixarmos a palavra e o exemplo de Jesus tocar o nosso dia-a-dia. No nosso caso, todos os dias temos de fazer escolhas. Ficar no sofá ou ir visitar um familiar; ir passear ou telefonar a um amigo que pode precisar de ser ouvido; ir à Missa habitual e participar no serviço ou escolher outra Missa para evitar falar com alguém de quem discordamos; ir dormir depois de um dia longo ou fazer um esforço para rezar o terço com alguma intenção particular…

Não pensem que fazemos sempre as escolhas certas, mas é esta forma de estar e de pensar, que também são as Famílias de Caná que nos instigam, que nos tem trazido grandes graças sob a forma de “filhos” de todas as idades que sentimos como “nossos”, de cuja vida fazemos parte e que fazem de nós uma família cada vez maior. Afinal, se Deus é o nosso Pai e todos nós somos uma grande família, então podemos até ser apenas um a caminhar e, em comunhão com Jesus, iremos no nosso percurso apanhando um a um, procurando vislumbrar sempre a presença do Espírito Santo e sabendo, com humildade, aceitar o que o Senhor nos reservou.

18 Comments

  1. Pilar Pereira

    Obrigada pela partilha, tão clara e tão simples. Há nas tuas palavras sabedoria que serve também para quem tem filhos, podes ter certeza!

  2. Nós somos apenas duas, mãe e filha. Ainda não fazemos parte das Famílias de Canã mas temos posto em prática muito do que aqui aprendemos. Ambas participamos nas tarefas da paróquia, estudamos os textos, tempo de oração …

    • Então agora é vir a um encontro e começar a caminhar connosco, não só virtualmente, mas realmente! Já leram o Ensinamento Mensal? Vinde ver! 🙂 Em Eventos já estão todas as datas marcadas! Bjs e até breve, se Deus quiser!

    • Marta Antunes

      Sentimos, Ana, que já demos mais do que os primeiros passos, não é? Então vamos continuar, vamos fazer melhor, vamos fazer mais…

  3. Catarina Silva

    Queria agradecer este testemunho à Marta e ao João Antunes e dizer-lhes que compreendo perfeitamente as duvidas e as questões que surgem… Também eu as tenho, por motivos diferentes, mas tenho.
    Quero também dizer-vos que atingir o patamar da aceitação sem revolta, como vocês parecem ter atingido, não é para todos. Todos nós temos de atingir esse patamar, todos temos de aceitar aquilo que o Senhor tem para nós, e aceitá-lo sem revolta. E isso é tão, mas tão difícil! É muito mais fácil a autocomiseração e o queixume…
    O amor entre um casal é sobretudo dom de Deus, e esse dom já Ele vos deu! Esse vosso exemplo de superação e de amor um pelo outro pode ser tão útil para ajudar outros casais, que ainda não chegaram ao patamar da aceitação e que correm o risco de permitir que o sentimento de revolta, destrua o amor um pelo outro.
    Se vos serve de consolação digo-vos que eu venho de uma família de 4 filhos, mas sem amor entre os pais…Não foi por haver filhos que o casal foi feliz e essa falta de amor entre o casal provocou danos muito grandes nos filhos…Por isso pensem que o facto de não terem filhos não faz de vós um casal menos digno.
    A Teresa diz sempre que Deus nunca se deixa vencer em generosidade, e eu acredito. Por isso não se esqueçam que se Deus vos deu o dom do amor um pelo outro ao ponto de terem constituído família pelo matrimónio, é porque com certeza tem planos para vós! E todos sabemos que os planos de Deus são sempre lindos! Podem ser um mistério…mas um mistério lindo!
    Tudo de bom para vocês e obrigada pelo testemunho.

    • Marta Antunes

      Obrigada Catarina pelas tuas palavras que nos surpreenderam pela positiva e que nos apaziguaram mais um pouco. Ajudaram-nos a entender melhor esse patamar a que chegámos com a graça de Deus. Muito obrigada!

  4. A sabedoria de Deus é misteriosa e secreta, diz s.Paulo, coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam.
    Obrigada pelo vosso testemunho!! É com estes testemunhos neste site que percebo quando Jesus diz que fará novas todas as coisas!
    Que Deus vos abençoe

    • Marta Antunes

      Sim, Filipa, é realmente misteriosa; e o amor de Deus cumula-nos de graças que nem nos apercebemos. Obrigada…

  5. Marisa Milhano

    Querida Família Antunes, obrigado pela partilha deste vosso testemunho – acreditem que foi altamente inspiradora até para aqueles, como eu, cuja Família de Caná possui apenas 1 elemento … Bem haja por cada um de vocês e pela vossa generosidade

    • Marisa, o teu caminho é, também, uma grande inspiração. Que todos nós possamos aprender a dar tanto como tu. Obrigada!

  6. É verdade… Os textos da Teresa são, geralmente, sobre famílias com crianças… Porque a Teresa partilha a experiência da sua família! Cabe aos casais sem filhos partilhar a sua experiência de ser família de Caná sem filhos e mostrar como vivem as 6 bilhas no dia-a-dia sem crianças (como rezam, como vivem os sacramentos, como põem em prática a visitação…). Por que não um post sobre isso? Só iria enriquecer o site!

    • Ok Inês, da nossa parte agradecemos a boa sugestão. Prometo começar a pensar nisso para uma próxima publicação 😉

    • Inês MirandaSantos

      Ao ler-vos, Marta e João, sou apenas inundada pelo “a Deus nada é impossível”, que são”insondáveis os caminhos do Senhor” e pelos vários exemplos, testemunhos da Sagrada Escritura de casais a quem são confiadas vidas – filhos – quando a biologia dava tudo por perdido. E a Sagrada Escritura continua a escrever-se nos nossos dias… Longe de mim com estas palavras alimentar o que quer que seja a não ser a sede de Graça para o que vocês já vivem: em Deus ser um (2+1=3, aquela matemática que não se aprende na escola). A biologia tem o seu domínio do saber e o seu lugar. Fecundidade vai para lá da fertilidade biológica.
      Bem conheço a pressão social e cultural… tantas vezes vazia de Espírito. Uma coisa é segura: onde quer que vamos, estejamos, não somos abandonados, e desejo que isto baste sempre. Reforço a sugestão da Inês… Já há muito que no meu íntimo ia rezando para que as famílias de Caná cuidassem explicitamente das famílias que, seja porque razão for, não têm (muitos) filhos (e outros exemplos diferentes para além dos filhos), mas em nada sendo “menos” família… Como diz o povo: até ao lavar dos cestos é vindima… para o vinho da alegria eterna que é a unidade em Deus.

      • Marta Antunes

        Oh Inês, muito obrigada pelas tuas palavras e pelo incentivo a que continuemos a nossa partilha.

  7. Que partilha tão linda e que pensamentos tão profundos… Muito obrigada e força para todos!! Beijinhos!

    • Marta Antunes

      Que todos nós nos sintamos em comunhão com o Senhor de onde virá essa força. Obrigada Natália!

  8. Inês obrigada pela tua partilha. Exactamente isso vive também no meu coração “já há muito que no meu íntimo ia rezando para que as famílias de Caná cuidassem explicitamente das famílias que, seja porque razão for, não têm (muitos) filhos (e outros exemplos diferentes para além dos filhos), mas em nada sendo “menos” família”
    Tenho esse desejo profundo e a partilha da Marta e do João veio na altura certa 😉

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