Testemunhos


Deixou-se nascer um bebé

Reflexão da Sónia Santos:

Confesso-me num misto de choque e encolher de ombros perante a notícia do bebé que nasceu sem rosto.

Choque pelos títulos que vi em tantos artigos jornalísticos: “o médico que deixou nascer um bebé sem rosto”, por exemplo. Encolher de ombros por, mais uma vez, o foco nos meios de comunicação social ser essencialmente relacionado com as queixas em tribunal, com a incompetência médica, com as culpas.

Gostaria mais de ler notícias que interceptassem as inúmeras questões éticas que esta designada incompetência técnica levanta.

Dou por mim a pensar apenas na maravilha deste nascimento. No mistério que os nascimentos correm o risco de perder pelo excesso de técnica em redor da gestação. Não ignorando naturalmente todos os ganhos que os meios de diagnóstico constituem na antecipação de tratamentos durante a própria gravidez e que salvam vidas.

Mas não é o caso das malformações. Todos sabemos onde potencialmente terminam os diagnósticos antecipados de malformações.

Gostaria mais de ler notícias sobre estes pais que apesar de tudo amam este filho, assim, tal como ele é. Gostaria de ler sobre como eles corajosamente se dedicam ao seu cuidado, como ternamente o acompanham e lhe seguram a vida enquanto Deus quiser.

Gostaria de saber o que se passa para além das malformações. E aí, talvez seja um bebé como outro qualquer: amado e cuidado por quem lhe quer bem e tanto o desejou.

Assim que li aquele título pensei de imediato na Chiara Corbella Petrillo. Uma mãe que passou duas vezes por esta mesma situação e levou a sua gravidez até ao fim natural. Porque a gravidez pode ser sua, mas o filho que a habita é de Deus. E ela mesma dizia que a missão de um pai é apenas e só acompanhar a vida dos seus filhos, seja durante o tempo que dura a gestação, seja durante meia hora (extra-uterina), ou durante uma vida inteira. Parte da sua história podia ter um título parecido: ” A mãe que deixou os seus filhos nascer”.

 (Testemunho da Chiara Petrillo)

As notícias que li hoje mudam, felizmente, um pouco o tom. Mostram a primeira fotografia pública da família. Nela podemos apreciar a ternura nas mãos entrelaçadas do pai e do filho mais velho a aconchegar e a acariciar o novo membro da família. Numa, pode  ler-se que o menino  “permanece sempre acompanhado e rodeado de amor”. Noutra, pode ler-se que o “casal vive com esperança…”. Só esta frase me interessa reter. Aquela mãe e aquele pai vivem com esperança esta vida do seu filho que à partida teria apenas horas de vida e agora, talvez não se saiba muito bem quanto tempo vai, afinal, viver.

O tempo…

O nosso Deus é um Deus atemporal, para Deus não existe tempo. Nada se passa com a dimensão de tempo terrena. Nós, cristãos, pela comunhão dos santos, fazemos diariamente a experiência da atemporalidade divina na nossa vida, seja no que dura um sofrimento ou uma alegria, um pedido de intercessão, uma oração.

Um cristão sabe que reza o terço e os seus efeitos estão para além do que foi e do que há-de ser. Talvez seja isto que ajuda a que um católico tenha um olhar tão especial sobre as vidas que duram pouco tempo, ou as doenças que duram tempo de mais. Porque sabem que o tempo é uma dimensão apenas terrena. Em Deus tudo vale antes pelo acontecimento e a forma amorosa como o vivemos.

A Chiara teve o seu terceiro filho saudável, mas acompanhou-o em vida pouco mais de um ano, devido à sua doença, e mesmo assim, a certa altura decidiu gradualmente afastar-se do contacto com ele. Quis que ele se habituasse a outras pessoas a cuidar de si, para não lhe ser tão difícil, depois,  lidar com a ausência repentina da mãe quando esta morresse. Nesta altura julgo que a Chiara já viveria para além do tempo, já não punha toda a sua esperança no tempo terreno, talvez vislumbrasse já muito mais claramente a eternidade.

Também me vem à memória o testemunho da Irmã Guadalupe que trava a sua luta na missão na Síria. Deste testemunho recordo o episódio em que decidiu em conjunto com o seu pai permanecer na Síria apesar do conflito naquele momento ter atingido proporções bastante perigosas para a vida de quem lá estava. Este pai foi capaz de dizer à própria filha: “Queres vir embora agora? No momento em que essa gente mais precisa de ti, vais abandoná-los? E depois, Deus saberá cuidar de ti muito melhor aí, do que eu o poderei fazer aqui.”.

Que liberdade! Que capacidade de viver para além do precioso tempo de vida na terra…

(Testemunho da irmã Guadalupe)

Tudo isto parece contraditório. Mas a verdade é que é esta liberdade em relação ao tempo e este ter como referência o horizonte da eternidade, que nos permite olhar com a mesma esperança para o filho que tem apenas umas semanas de gestação, ou umas horas de nascido e para o filho que tem a vida toda pela frente. É pensar na proporção entre uma gota de água, ou cinco litros de água e os oceanos do mundo inteiro. É pensar na vida mais longa já atingida na terra e pensar na imensa, infinita eternidade…

Penso em todos os doentes paliativos de quem já tive o privilégio de cuidar até hoje e em todas as malformações (físicas e neurológicas) que adquiriram ao longo da sua doença e dos seus tratamentos. Penso nas numerosas lutas interiores que vi tantos doentes e tantas famílias travarem para alcançar esta liberdade no final das suas vidas, mais jovens ou mais idosas: com filhos pequenos que não puderam educar, com netos jovens que já não verão casar, ou com vidas inteiras pela frente que os pais já não verão acontecer.

Este bebé não tem rosto (assim ficou conhecido), mas tem algo muito mais importante, tem um nome e o seu nome está inscrito no Céu desde todos os tempos e para sempre.

Rezemos por estes valentes pais que acompanham com tudo o que podem a pequena ou grande vida na terra deste seu filho. E rezemos por este menino, para que se cumpram nele todos os desígnios que Deus tem para a sua vida.

10 Comments

  1. Catarina Silva

    Que lindos testemunhos, assim ao jeito de reflexões, que tem deixado por aqui, Sónia!
    Lindíssimos mesmo! Com tanto para reflectir! Obrigada!

  2. Obrigada por esta partilha e reflexão. Desconhecia por completo a história desta família. Desconhecia também a da Irmã Guadalupe. A da Chiara conhecia, mas é bom recordá-la mais uma vez.
    Viver com liberdade em relação ao tempo terreno, tendo os olhos postos na atemporalidade de Deus e na Vida Eterna que Ele nos quer dar pode realmente ser a chave para a felicidade. É também algo que ainda não faço…

  3. Rosário Leitão

    Obrigada! Gostei muito…..ajudou-me a reflectir sobre um assunto ,que me provocou pelas mesmas razões algum desconforto mas, sobre o qual ainda não tinha pensado desta maneira.

  4. Títulos como “O bebé que não devia ter nascido” deixaram-me arrepiada, porque só demonstram que a ideia generalizada é que as crianças com malformações são descartáveis. Como se se tratassem de mercadoria com defeito…

  5. Sónia,
    ontem, a propósito deste tema, vi uma entrevista à madrinha e uma coisa que eu retive foi a convicção com que disse: eu já sou madrinha! Sim porque o Rodrigo já foi Baptizado!
    No meio de tanta dor e consternação estes pais e esta madrinha pediram o Baptismo para o Bebé.
    Beijinhos e parabéns pelo magnífico texto

  6. Natércia Fernandes Coelho

    Olá! Que bela e profunda reflexão! Também pensei na Chiara Petrillo e no testemunho que nos deixou, dos pequenos passo possíveis para a santidade, do seu SIM à vida. E que incoerência ter governos que dizem que são a favor da vida e depois aprovam leis contra ela…
    Beijinhos de Zurique🙂

  7. Rogério Tavares Ribeiro

    Bela reflexão Sónia!
    Só pessoas habitadas e iluminadas pelo Espírito de Deus podem encontrar razões que dêem sentido a esta vida ( do bebé sem rosto), quando toda a sociedade se lamenta de como foi possível deixar nascer assim um bebé!
    Bem haja!

  8. Bem-haja Sónia! Que maravilha de reflexão…e que almas cheias do Espírito Santo as daqueles pais que amam tanto aquele filho, tal como o ama o Pai Celeste que o acolheu como filho através do batismo.
    Da mesma forma como Jesus nos dizia para amarmos os nossos inimigos, porque amar quem nos faz bem também os pagãos sabem fazer…. também podemos igualmente transpor para estes casos. Amar um filho perfeito e saudável, qualquer um é capaz, mas amar um filho com uma malformação congénita, só está ao alcance de quem tem o amor de Cristo no coração, e é capaz de ver mais além, com o olhar fixo no horizonte da Eternidade.
    É impossível não nos compadecermos com o sofrimento amoroso destes pais, e rogar por eles.
    Que o Senhor tenha piedade destas almas sofredoras e nos ajude também a sermos bons administradores do que somos, das graças que nos concede e que coloca à nossa disposição.

  9. Nao tenho palavras a acrescentar às da Sónia e às dos comentários aqui escritos, mas quero deixar aqui também o meu bem-haja! Que maravilha de reflexao!
    Eu nao conhecia esta história, fiquei toda arrepiada. Duas passagens da Sónia tocaram-me especialmente: “O nosso Deus é um Deus atemporal, para Deus não existe tempo. Nada se passa com a dimensão de tempo terrena.(…) Um cristão sabe que reza o terço e os seus efeitos estão para além do que foi e do que há-de ser. (…) sabem que o tempo é uma dimensão apenas terrena. Em Deus tudo vale antes pelo acontecimento e a forma amorosa como o vivemos.”
    “Porque a gravidez pode ser sua, mas o filho que a habita é de Deus. (…)a missão de um pai é apenas e só acompanhar a vida dos seus filhos, seja durante o tempo que dura a gestação, seja durante meia hora (extra-uterina), ou durante uma vida inteira. “–> eu acredito profundamente nisto!

    Como diz o Ricardo:”É impossível não nos compadecermos com o sofrimento amoroso destes pais, e rogar por eles.”—> Avé Maria….

  10. Muito obrigada Sónia por esta reflexão…Nunca tinha pensado no aspecto “temporal” ou “atemporal” de Deus que referiu e de como se reflecte nas várias vertentes das nossa vivências… Um grande bem haja!
    Que grande exemplo os pais do Rodrigo! Rezemos por eles e demos graças a Deus por esta nova e linda família!

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