Testemunhos


Mas que descanso!

Testemunho da Sónia Santos:

Desde sempre tive uma necessidade imensa de silêncio e solidão.
Com os nossos filhos temos tido o cuidado de os estimular também para a arte da contemplação, do silêncio, do tempo que demora a passar, da natureza que é muito mais parada e silenciosa do que os programas de televisão gostam de vender. Mas cinco rapazecos constituem uma natureza, por vezes, bastante ruidosa!

Desde criança sempre gostei de estar um bocadinho à parte, assim silenciosamente, a observar, ou simplesmente a pensar. Gostava de apreciar os outros, os seus gestos, as suas conversas, os seus tons… O silêncio era-me muito precioso e estar sozinha não me incomodava. Ao longo dos anos de adulta fui percebendo que esses eram os meus momentos com Deus. Conversávamos muito, eu e Ele, sempre só em pensamentos. Eu “falava-lhe” do que via, das pessoas, dos acontecimentos, dos problemas que ia vendo e escutando lá por casa e outros que entravam de passagem, de outras pessoas. O retorno que Ele me dava vinha das homilias que ouvia sempre com imensa atenção ao Domingo, vinha das determinações escassas, mas certeiras e claríssimas do meu pai “sim, sim. Não, não.”, e da fortaleza e altíssima resiliência da minha mãe. Vinha também dos ditados que a minha mãe usava para cada situação: “Dá Deus o tempo conforme a roupa”, “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”, “depois da tempestade, vem a bonança” e tantas outras. Fui-me apercebendo já em adulta e ao tomar maior conhecimento, de como a cultura popular lá de casa tinha, afinal, uma influência bíblica tão grande.

E assim fui crescendo na fé (em desapego, confiança e mangas arregaçadas) ao assistir à forma coerente como os meus pais aplicavam corajosamente tanto da palavra de Deus às suas vidas. E a vida deles nunca foi, desde crianças, e depois, já com filhos, nada fácil nem descansada.

Enquanto jovem sempre estive envolvida em inúmeros serviços pastorais ou escolares, movia-me o desejo do encontro com o outro. Este encontro já não era solitário, mas era ainda controlado. Era eu que ia ao encontro dos outros. No fundo, era eu que decidia quando e como dedicava esse tempo e não era nada difícil regressar àquele encontro solitário sempre que queria.

Entretanto, esta dinâmica de partida e regresso mudou para sempre e já não é tão fácil e, por vezes, mesmo impossível, recolher-me naquele silêncio e solidão que sempre me foi tão estruturante. Cinco filhos pequeninos mudam completamente a essência deste movimento, já não sou eu que parto ao encontro do outro, mas são eles, os cinco, à hora que lhes apetece, que partem ao meu encontro. No dia do meu matrimónio parti ao encontro e, de certo modo, ainda não regressei nem vou regressar mais.
O paradoxal deste sentir é a firme convicção de que é assim que tem de ser. Desejo ainda o silêncio e a solidão, mas aceito e defendo que não podem ser estes a ir à frente.

Tenho, graças a Deus, morrido todos os dias um bocadinho, a cada batuque, a cada grito, a cada choro, a cada brincadeira barulhenta, a cada salto no sofá, no chão, nas cadeiras, nos muros, nas árvores, nas camas, no ar… A cada birra, a cada necessidade de supervisão, a cada ida ao WC (X5, na maioria das vezes seguidas!!), a cada queda, a cada ferida, a cada conquista… A cada interrupção constante daquele desejado e agora efémero silêncio, a cada interrupção para tentar juntar duas ideias seguidas para escrever, para pensar, para organizar, para ler, etc. Num segundo começo, no outro logo surge: “mamã, mamã, olha, olha!”, “Mamãaaaaa, olhaaaaa, aquiiiii”…
Para uma criança tudo, tudo (!), qualquer objecto é uma oportunidade para produzir um batuque, um barulho, um ruído. É impressionante!! E lá se vai o tão desejado silêncio…

Num destes dias, podia dizer, de maior sossego, enquanto o pai saiu durante uma hora e meia para ir com os quatro ao treino de Hóquei e eu fiquei em casa “só” com o pequenino recém-nascido Joaquim, coloquei música, alta o suficiente para ver se o acalmava e ele conseguia adormecer ao ritmo daquele bonito som, para poder terminar o jantar, pôr a mesa, apanhar uma roupa do estendal, etc… No meio de toda aquela agitação interior e exterior, começa a soar pelos meus ouvidos a dentro:

Mas que descanso é viver
A morrer todos os dias
Por ir
Contra o próprio querer
E esquecer o que se queria
E querer
O que Deus quer.
Queira eu
O que Deus quer.”

Queira eu o que Deus quer

Ali encontrei o silêncio que procurava, não um silêncio real, quer dizer, terreno, porque o Joaquim ainda permanecia naquele “ram-ram” ruidoso para adormecer, mas o silêncio da verdade, da divindade, do Céu, da plena liberdade de repousar apenas em Deus e morrer, morrer, morrer e querer morrer para os pequenos desejos individuais.

Uns dias mais tarde, ao explorar um pouco da vida da Madre Teresa de Calcutá, para uma tarefa que tinha em mãos, detive-me neste diálogo:

Jornalista: – Quando é que a Irmã descansa?
Madre Teresa: – Descanso no Senhor.

Quando? Sempre. Não há tempo definido, não há condições ideais. Descanso no senhor… Que revelação belíssima.

Era também a madre Teresa que afirmava que não se importava muito com o descanso (terreno), pois teria toda a eternidade para descansar. Esta afirmação apanhou-me quando eu era ainda muito jovem, graças a Deus! Mas, claro, só hoje lhe vou descobrindo todos os significados e profundidade que alcança.

São Paulo exorta-nos a que nos gastemos. Como eu admiro esta liberdade e como desejo ser capaz de me gastar, física (ui, as costas… o sono…) e espiritualmente, morrendo e indo “contra o meu próprio querer”, “esquecendo o que queria” e ter esta constância de descansar sempre no Senhor.

Volto a lembrar e a contemplar Deus na resiliência da minha mãe. Ela não é a pessoa mais optimista do mundo, nem sabe muito bem estar plenamente em festa e alegremente bem disposta, mas tem uma confiante fortaleza para ignorar as suas dores, o seu cansaço, os seus medos, as suas limitações físicas e preferências (acho que a minha mãe não tem grandes preferências), o seu sossego e nem nunca ouvi falar muito da palavra “conforto” lá em casa. Talvez o descanso dela seja muito mais no Senhor, do que no sofá, ou no sono, ou na praia.

Contemplo e experimento de novo um pouco deste silêncio divino em todos os instantes de cúmplice contrição com o meu marido. À hora dos banhos, à hora da refeição, durante a oração familiar, por exemplo! Quantas vezes eles falam, falam, falam sem parar e nos cruzamos na cúmplice contemplação de todo aquele alegre e vivaço barulho!

Que Deus me ajude sempre, em cada instante de eminente exasperação pelo ruído, ou pelos apelos constantes sem intervalo, a ver ali a mais perfeita revelação do próprio Deus, na presença do outro.

4 Comments

  1. Elsa Cristina Cóias Valverde

    Sónia, que belo testemunho!

  2. Tão bonito Sônia! é uma aprendizagem grande, conseguir ter tempo para contemplar no meio de tanto ruído! Mas é essencial! E com Ele tudo é mais fácil! Beijinhos

  3. Olívia Batista

    Que grande verdade, saímos para não mais voltarmos! Num destes domingos pensava durante o silêncio de acção de graças que antes dos filhos não dava o devido valor àquele momento de silêncio tão belo, nem reparava como era bom estar sentada a ouvir uma homilia tranquila… Mas dá-me a sensação que tiro muito mais do pouco que escuto agora e isso é amadurecer na fé, no aqui e no agora, no ruído de fundo que Deus nos fala.

  4. Obrigada pela partilha é sempre bom escutar as suas palavras

    Helga

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