Testemunhos


O eu, a fé, e a benção dos capacetes

Testemunho do João Miranda Santos:

No fim de semana passado circulámos por diversas estradas do centro do país. Encontrámos um número fora do comum de motociclistas em todas as estradas. No domingo quando regressávamos a casa pela auto-estrada para Lisboa a quantidade de motas na área de serviço era tão grande que me levou a perguntar à senhora da caixa o que se passava. E por ela fiquei a saber que tinha acontecido a benção dos capacetes em Fátima. A minha primeira reacção foi pensar “não sabia que existiam tantos motociclistas católicos”.

Eu não fui lá, mas se calhar devia ter ido. A verdade é que há já 4 anos que ando 40km de mota todos os dias como meio de transporte para o trabalho. Não o faço de ânimo leve, nem é uma situação que aceite como definitiva. É apenas um mal necessário para poder ganhar diariamente cerca de 2h ou mais. Horas que de outra forma seriam roubadas necessariamente ao tempo de família e que seguramente iriam ser uma grande perda para a nossa família. Só por isso aceito o risco de uma perda igual ou maior que pode vir da utilização deste meio de transporte. Porque sem dúvida que é muito arriscado. Apesar de aproveitar cada viagem para rezar o terço, costumo ficar na dúvida se Nossa Senhora consegue prestar alguma atenção à minha oração ou se está mais ocupada em desviar-me os perigos do caminho. E entretanto não deixo de planear as mudanças necessárias para deixar de necessitar de o fazer.

Em Fátima estavam provavelmente muitas pessoas que também usam as motas como meio de trabalho, como por exemplo todos os agentes policiais que vi nas imagens fardados. E é de louvar que tenham a humildade e a fé suficientes para saber que em todas as circunstâncias da nossa vida, mais ou menos arriscadas, estamos sempre nas mãos de Deus, e só d’Ele depende, no limite, a nossa vida. E por isso é  muito pertinente receber uma benção particular para esta atividade particularmente arriscada. Mas também me parece que também estavam nesse dia em Fátima muitas pessoas para as quais andar de mota é apenas uma forma de lazer, de prazer ou divertimento. E para esses casos parece-me que a benção dos capacetes representa bem aquilo que tantas vezes é a nossa fé imatura e egoísta.

Ninguém pode dizer que procurar uma benção especial, recitar uma determinada oração de intercessão, colocar uma vela a arder ou fazer uma promessa, não é uma expressão de fé. É sem dúvida, e muitas vezes expressão de uma fé fortíssima que consegue ultrapassar anos infindos de estudos teológicos. Quantas vezes fico esmagado ao ver a fé das pessoas à minha volta e a forma como essa fé consegue ultrapassar até os sentidos ou mesmo a razão, coisa que a mim ainda me custa por vezes. Mas quantas vezes vejo também esta fé que temos, mais ou menos forte, usada como meio essencialmente de alcançar os nossos objectivos e anseios. Quantas vezes usamos esta fé, que é dom de Deus, para me servir a mim e não para servir a Deus, como disse a Teresa. Tantas vezes esta minha fé é usada para conseguir de volta a satisfação dos meus anseios e vontades próprias, numa relação mercantil com Deus, em que eu Lhe dou para Ele me dar de volta.

Podia dizer que isto é um abuso da fé, mas olhando para a minha experiência pessoal e para o meu caminho, diria mais que isto é uma fase da fé, ainda bastante imatura, em que eu ainda me sirvo de Deus. Lá mais para a frente, nas coisas em que já o consigo fazer, já permito que Deus se sirva de mim. Aí a minha fé já não é a de que Deus me pode valer mas sim a fé de que se eu me entregar completamente à Sua vontade, já nada mais me vale ou interessa. Nessa fase já não conto com Deus como guarda-costas dos meus caprichos e garante da minha tranquilidade. Nessa fase Deus já é o comandante da embarcação em que eu quero entrar e permanecer no meio de todas as tempestades, navegando com Ele para onde Ele quiser, nem que sejam as águas mais agitadas.

5 Comments

  1. Pilar Pereira

    Obrigada por esta partilha e reflexão.

  2. Quando vi fotos nas redes sociais da bênção dos capacetes também comentei com o Álvaro que era uma pena não termos ido, mas que não fazia mal porque recebemos a benção todos os domingos na missa 😉 ao contrário do teu exemplo, nós usamos a mota como tempo de lazer, algum do nosso tempo de casal é pois passado numa mota! Mas, voltando a Fátima, quando vejo tanta gente junta ali naquele lugar, aos pés de Maria, naquela Eucaristia vejo uma nova esperança, a esperança de que alguém num daqueles momentos, sente Jesus, se converte de verdade e muda a sua vida!

    • João Miranda Santos

      Claro que eu não quis dizer que as atividades que fazemos no nosso lazer são más. Especialmente se nos ajudam a preparar e a viver as missões que Deus nos pede, são muito boas!

  3. Tão interessante e tão rico… muito obrigada pela partilha! 🙂

  4. “a fé de que se eu me entregar completamente à Sua vontade, já nada mais me vale ou interessa” … creio ser possível porque, podendo pedir um grande presente para meu benefício neste mundo, posso escolher pedir ao Senhor “apenas” um lev shome’a (um coração que escute) como Salomão fez (1Rs3,9) e assim configurar-me à Sua Vontade.
    Que bela reflexão João. Muito obrigada!
    Que o Senhor nos fale ao coração e nos dê o dom da sabedoria para O compreender!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *