Testemunhos


O maior dos jejuns

Testemunho da Marta Antunes

Os dias que vivemos são, de tantas formas, atípicos, longe do que a maioria de nós está habituada a chamar de “normais”. Mas para além do medo, da ansiedade, da incerteza e da doença, à minha cabeça vão chegando alguns pensamentos que considero importantes, não fosse eu alguém de pouca cultura católica.

A pandemia do Covid-19 que nos ataca não começou agora, mas no final do ano passado na China. Mas foi agora que aqui chegou, ao meu país. Agora, na Quaresma. Há tanto tempo que me debato e que até ponho em risco a minha saúde mental a tentar fazer com que toda a gente perceba, com que eu própria perceba, que é tempo de abrandar, que basta de vivermos os nossos dias em correria a querer tudo para ontem e a não dar importância a tanto que realmente importa. Não damos importância à pequena flor que desabrocha antes do tempo porque está demasiado calor, não reparamos (ou não sabemos como reparar em segurança) naquela pessoa que nos pede esmola na rua, não olhamos para a face de alguém de quem gostamos quando falamos com ela porque estamos a fazer um monte de coisas que têm de ser feitas ou o nosso dia vai ficar todo virado do avesso, não escutamos o nosso coração de onde nos fala o Senhor, não paramos física, mental e espiritualmente…

Agora, no tempo em que Deus nos pede que façamos silêncio, que escutemos, que rezemos e nos preparemos, é-nos exigido que façamos de cada um dos nossos dias uma constante habituação ao desconhecido, tentando planear o nosso dia, das nossas famílias, sem saber se vamos trabalhar, se e como poderemos ficar isolados em casa. Tantas são as dúvidas.

No meu caso, estou em casa. Como voltei a estudar, estou agora a estagiar numa empresa cujo primeiro nível do plano de contingência exigiu que, entre outras medidas, os trabalhadores sem contrato, como os estagiários, fossem para casa até ordem em contrário. Assim, estou de quarentena ou, mais corretamente, em isolamento. Mas esta palavra… quarentena… No fim-de-semana questionei-me, mas de onde vem esta palavra? Só conseguia pensar nos 40 dias da Quaresma, nos 40 dias que Jesus passou no deserto. Fui verificar a origem da palavra “quarentena” e dizem que antigamente, quando havia suspeita de que alguém tivesse uma doença contagiosa, ficava 40 dias em isolamento. 40 dias. Para mim, é óbvio o porquê deste número. E não deixa de me causar a certeza de que algo se está a cumprir.

Volto a dizer que sou fraca em cultura católica. Digo também que a minha fé é muito pequena e que o conhecimento que tenho das escrituras está muito no início (apesar de já lá irem alguns anos de leitura diária J). Mas, à semelhança do que tenho pensado nos últimos anos quando tomo conhecimento de catástrofes naturais, de tragédias sem igual, de guerras sem fim, agora mais uma vez sei que esta praga, esta peste, faz parte daqueles dias que foram anunciados por Jesus:

Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima. (Lc 21, 28)

Não consigo deixar de pensar que em qualquer tipo de guerra há mortes e perdas. Não consigo deixar de pensar que, mesmo que tudo isto seja necessário e muito bem se possa tirar daqui, há pessoas que perderam as suas vidas, há pessoas que estão a dar mais do que podem porque estão incansavelmente, noite e dia, a salvar tantas outras vidas. O que nos pode dar alento, além de tudo o que já tentamos fazer? Nós, Jesus!

Mas e a Eucaristia? Que irónico eu me ter indagado no início desta Quaresma sobre que jejum especial poderia eu fazer que me fosse mesmo difícil? E Jesus apresenta-me o maior dos jejuns. Que não faço voluntariamente mas por imposição. O jejum da Sagrada Comunhão. No Domingo, dia 15 de Março, a assistir na internet à Missa que o Pe. Mário celebrou na Igreja de S. João Baptista, aqui em Tomar, com o auxílio de alguns voluntários e dos meios de comunicação locais, perguntei ao meu marido que é ministro da Comunhão: – E agora, o que fazemos sem a Eucaristia? Ele, um pouco exasperado na sua maneira calma de ser, fez-me ver que não importava e que nem colocasse essa questão porque Jesus estava sempre em nós desde que nós permitíssemos e que Ele arranjaria maneira de nos fazer sentir a força que precisávamos para as provações que aí vinham. Como sempre. Sei que é verdade e, por isso, cabe a cada um de nós, alimentar o nosso espírito com tanto que nos é oferecido, por exemplo, no site das Famílias de Caná, não esquecendo nunca de, apesar de em isolamento, levarmos por telefone, por mail, de uma varanda para outra, a esperança, a generosidade, a nossa amizade e o nosso amor a cada um que cruza o nosso caminho. Não nos podemos tocar mas podemos tocar o coração dos outros, talvez agora ainda mais do que antes.

Comecei a escrever este texto há três dias e hoje é já dia de São José. O pai, o chefe de família, o trabalhador. Esta é outra luta. A dos trabalhadores, a dos empregadores, a dos que gostam de ter as contas em dia e agora não sabem como vão pagar ordenados, fornecedores, obrigações… Eu também não sei. Mas tenho de me lembrar que só Deus basta. Tenho de confiar. Temos de confiar e nada, do que Deus quer para nós, nos faltará. São José, rogai por nós e ajudai-nos a ajudar.

Que Deus permita que saibamos aprender tudo o que precisamos com esta provação e que, uma vez passada, não nos esqueçamos de nada e consigamos pôr em prática o que Ele nos quer ensinar. Amém!

2 Comments

  1. Concordo absolutamente. Aliás, na 4.ª feira de cinzas, o Sr. Padre disse “Quaresma é tempo de quarentena”. Pois é. Aqui está ela.
    É também tempo de deserto. E que maior deserto do que ruas vazias, agendas sem eventos e isolamento social? É tempo de renúncia. E que maior renúncia do que não reunir a família e os amigos para celebrar aniversários e o Dia do Pai nesta altura? É tempo de jejum. Podemos imaginar jejum de muitas coisas (e todos os anos tentamos escolher algo), mas não há maior jejum do que o jejum do Pão do Céu.
    Por isso acredito de que esta Quaresma é uma surpresa que Deus nos enviou. Podemos fazer planos para a nossa Quaresma, mas o plano d’Ele é sempre melhor.
    A mim custa-me muito não ter a Eucaristia, mas posso rezar junto do sacrário, porque a igreja da minha paróquia não fechou. Podemos ir rezar individualmente, só as celebrações e orações comunitárias foram suprimidas (porque nessas sim, há risco de contágio).
    Vou pensando na nossa Rainha Santa Isabel, e em tantos outros santos da Idade Média, que só comungavam uma vez por ano, pois eram as regras da altura. Isso não os impediu de viver intensamente a sua relação com Jesus.
    Como dizia São Paulo: “Nem a altura, nem o abismo, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso”.

  2. João. Mateus. Pereira

    Boa tarde um testemunho lindissimo.
    Deus serve se de nós para dizer ao mundo que Cristo está bem vivo na nossa vida, nós é que nao temos tempo para o ouvir.
    Hoje quando acordei e ao pensar neste problema que o mundo está a passar chorrei e
    como homem de 58 anos chorrei porque percebi que deus me quer dar um abanão para mim ,para ti e para todo o mundo porque nós nao temos tempo para Deus e agora já temos que ter tempo para este virus que nos destroi e depois de ler este testemunho de. Marta Antunes fiquei de Coração cheio além de ter caido as lágrimas enquanto lia.
    Obrigado Marta que Deus te elumine e que te dê forcas para dizeres ao mundo que Cristo está sempre desponivel para nos atender em todos os momentos da nossa vida abraço em Cristo Decolores

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