Testemunhos


Sim, recebo-Te

Testemunho da Sónia Alexandrina Santos

Ontem, sexta-feira Santa começámos o dia a rezar a via sacra, cumprindo os passos da paixão pelo exterior da nossa casa, ao ritmo dos diálogos entre Jesus e Santa Faustina. Confesso que me fez falta a leitura da palavra associada a cada estação e até tive alguma dificuldade em concentrar-me naquele formato diferente.

Ontem, sexta-feira Santa cumpriram-se dez anos sobre o dia do nosso matrimónio. Naquele 10 de Abril tudo em nós era esperança, alegria e havia em nós um sentido profundo de missão no passo que estávamos a dar. Ao longo destes dez anos com a graça de Deus a acompanhar-nos a missão tem-se revelado muito mais surpreendente do que poderíamos imaginar naquele princípio.

Depois de almoçarmos questionámos-nos um ao outro: “Como é que se faz para encaixar a comemoração do nosso aniversário num dia de sexta-feira Santa?”Quem nos conhece sabe que, em determinados assuntos, ansiedade e antecipação não é o nosso forte. E portanto foi mesmo assim, quando o dia já ia a meio, que foi surgindo espontâneamente a forma de comemorar.

Gosto muito de saborear a surpresa, o encadeamento natural das coisas que podemos fazer sem estrutura, sem lista, sem um plano, apenas ao ritmo dos acontecimentos, adaptado a cada momento, a cada necessário ajuste. Quem gere crianças pequenas sabe cultivar esta atitude de prazer pelo inesperado.

A noite da ceia do Senhor terminou bastante tarde em nossa casa, pelo que no dia seguinte mesmo os mais velhos estavam bastante ensonados. Queríamos tê-los na sua capacidade máxima para a celebração da paixão, então, tentámos a tarefa impossível de “vão todos dormir a sesta” com a desculpa de que até a mãe ía dormir uma vez que ía trabalhar à noite. Conseguimos que os mais velhos estivessem pelo menos meia hora a descansar.

Aqui, chegou a primeira surpresa, assim, sem o idealizarmos, encontrámo-nos os dois em frente ao canto de oração sem ornamentos, a contemplar a cruz, Cristo pregado na cruz, sozinho. E ali tudo começou a crescer em sentido.

Recordei a actividade que ambos planeámos para as famílias no primeiro acampamento de Caná. A construção de uma cruz e uma corda que moldasse a  família à imagem de Jesus. Nesse dia concluímos o que a paixão nos quer dizer e o que Santa Faustina repete em quase todas as estações da via sacra de diferentes formas “não há salvação sem cruz”. O passo final da actividade constava de pregar essa corda na própria cruz, portanto, a nossa família foi aí pregada na cruz pelas nossas próprias mãos, de martelo na nossa própria mão em gesto de afirmação do que o próprio Jesus nos diz:

Se alguém quiser seguir-me, tome a sua cruz e siga-me. (Lc 9,23)

De repente, a opção pela via sacra de santa Faustina parecia ter um propósito…

“Sim, recebo-te!”, afirmámos um ao outro no dia do nosso matrimónio. Isto quer antes de tudo dizer “Sim, recebo-Te, a Ti Jesus, oh cruz de salvação! E prometo ser-Te fiel, amar-Te e respeitar-Te através do amor esponsal ao João e aos filhos que nos quiseres dar. Na cruz, manter a alegria todos os dias da minha vida até à eternidade”!

No restante tempo até terminar o tempo das sesta pusemos em acção o plano para associar as duas celebrações, a paixão e o matrimónio.

Fiz um bolo em formato de cruz, em cada chaga de Cristo fixei as dez velas, duas a duas. Sem esquecer os jorros de sangue e água, luz e graça infinitas na vida cristã. Desenhei sete bonequinhos em representação da nossa família no formato da cruz, à semelhança daquela actividade do acampamento.

Coloquei uma toalha vermelha sobre a mesa a simbolizar a paixão e a entrega, o sangue e o amor. No topo da mesa coloquei a cruz da via sacra rezada e ilustrada de manhã e a moldura que tem cada elemento da nossa família e ao centro a fotografia mais importante e significativa do dia do nosso matrimónio, o momento da consagração eucarística, onde tudo começou e há-de, com a graça de Deus, terminar.

O jantar manteve-se, apesar da festa e excepção feita para o bolo, em modo de sexta feira Santa, mantendo as regras de jejum combinadas entre nós para a nossa quaresma.

O ponto alto da nossa festa foi quando se revelou a surpresa reservada pelo pai para apagar as velas que ele tinha comprado para o bolo!! Qual milagre da cruz, uma chama que nunca se apaga!!

Antes de seguirmos para a cama ainda passámos junto à cruz sozinha na sala e na escuridão da noite para a adorar.

Hoje, sábado Santo, sábado do tempo que parou, da expectativa, do rescaldo do escândalo causado pela cruz, aguardamos, em silêncio e contemplação, a ressurreição. Não há sábado de Aleluia que não recorde as palavras do bispo de Coimbra, D. Albino Cleto, em 2008 ao grupo com quem eu estava em retiro. Verdadeiramente conseguiu transportar-me para Jerusalém e para o coração dos apóstolos…

“Qual seria o sentir daqueles homens a esta hora há dois mil anos atrás? A vida deles tinha sofrido uma mudança radical, eles mudaram tudo, deixaram tudo para seguir aquele Cristo, aquele Amor irresistível… E agora… o seu Senhor tinha desaparecido, morreu. Quanto espanto e inquietação não iria no coração de cada um deles e, em cada um, uma inquietação diferente… ‘o que vai ser a nossa vida agora? Como voltar ao que era, ou prosseguir…? Jesus tinha-lhes dito tudo, tinha-lhes falado da ressurreição, mas eles nem se lembravam disso de tão derrotados que se sentiam.”

Assim também nos sentimos nós neste sábado Santo, de repente estamos sem Eucaristia, sem comunhão, sem Jesus realmente e fisicamente presente…

Parece que a Páscoa volta realmente a acontecer no nosso tempo, mas que não será já amanhã, infelizmente. Amanhã adivinha-se ainda como uma espécie de prolongamento da promessa… Os túmulos das igrejas (os sacrários) serão abertos brevemente, se Deus quiser! Sinto que só aí poderei celebrar realmente e totalmente a ressurreição, a presença física de Cristo vivo junto de mim e em mim.

Aguentemos o silêncio e a espera que ainda se vai manter, com coragem e esperança! E que Deus aumente cada dia mais a nossa fome, que não nos habituemos a ela, que não criemos nenhuma espécie de resistência à sensação de fome, como acontece com uma refeição que é saltada.

Sabemos que Ele ressuscitou! Não descansemos enquanto não nos encontrarmos com Ele!

12 Comments

  1. Queridos Sónia e João, que vida rica e preenchida ao ritmo do Amor! Que Deus nos livre do Sábado de Aleluia… Muitas felicidades, e sim isto é uma Páscoa, das muitas da História, mas embalada pela Ressurreição… Beijinhos a todos, todos e todos…

    • É Páscoa, claro. Mas como escreveu a Sónia, com tanta clareza, Jesus ressuscitado não apareceu logo a todos… Alguns estiveram de imediato com Ele, como a Madalena; outros, como Tomé, precisaram de aguardar oito dias. E certamente que outros, mais dias ainda. Para nós, a Páscoa acontece esta noite, mas o encontro com o Ressuscitado será pleno quando O encontrarmos na Eucaristia. Que ninguém se habitue à ideia de que podemos viver sem Eucaristia! Porque tenho lido comentário atrás de comentário, um pouco por todo o lado, a assumir que a Eucaristia deixou de ser imprescindível e que podemos bem viver sem Ela, desde que Jesus esteja no nosso coração. Não, não, não! Não enganemos o “estômago” com miragens, como aquelas crianças famintas, em países que vivem o escândalo da fome de pão, que comem terra para enganar a fome…
      Uma Santa Páscoa, Rita! Amanhã falamos ao telefone! Ab

  2. Parabéns aos noivos!
    Estou como tu, ansiosa pelo encontro com Jesus Ressuscitado na Eucaristia para festejar realmente a Páscoa!

    • Sónia Alexandrina Santos

      Santa Páscoa Olívia!
      A espera está imposta, esperemos cada vez com mais fome! Assim peço a Deus, que aumente a minha fome cada dia mais.
      Beijinho grande para todos aí em casa!

  3. Muitos parabéns Sónia pelos 10 anos de casamento lindo! Parabéns à família! E Santa Páscoa! Lindo testemunho, como sempre! Beijinhos

  4. Marisa Milhano

    Parabéns aos noivos!
    Autêntica família missionária, sempre inspiradora e evangelizadora! Que Deus vos abençoe abundantemente 🙂 Beijinhos para todos

    • Sónia Alexandrina Santos

      Santa Páscoa Marisa! Espero que esteja tudo a correr bem contigo nesta altura.
      Beijinhos

  5. Que lindo bolo, Sónia! Gostei especialmente do sítio onde colocaste as velas…
    E as expressões dos meninos com a velas que não apagam não têm preço!
    Obrigada pelo belo testemunho e uma Santa Páscoa para todos.

    • Sónia Alexandrina Santos

      Fiquei a saber já depois do post publicado que afinal a escolha das velas não foi intencional, eram as únicas existentes na prateleira do supermercado!! Há coincidências que parecem uma prenda!
      Feliz Páscoa Isabel

  6. Parabéns! Gostei da ideia da toalha vermelha, unindo a paixão do casal à Paixão de Cristo!

  7. Sónia Alexandrina Santos

    Inês, Santa Páscoa!
    Se “paixão do casal” não for de tendência meramente romântica e significar entrega e doação máxima à missão matrimonial, com toda a renúncia e dedicação que a santidade exige, então sim, era essa união de significados que pretendia transmitir.
    Beijinho, Inês

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *