Esperando contra toda a esperança

“Abraão, esperando contra toda a esperança, creu e tornou-se pai de muitos povos. Ele não se deixou
abalar pela desconfiança, mas fortaleceu-se na fé, dando glória a Deus, convencido de que Ele podia
cumprir o que prometeu.” (Rm 4, 18.20-21) “Porque a Deus, nada é impossível” (Lc 1, 37; Gn 18, 14)

Advento

O Advento é o tempo litúrgico menos celebrado no mundo cristão, porque é tão fácil saltar por cima e ir
diretamente para o Natal. Há festas de Natal durante todo o Advento, das escolas aos locais de trabalho, as
ruas iluminam-se, as montras brilham, as canções enchem o ar. Como remar contra corrente e fazer espaço
para o Advento? E porquê celebrar o Advento? Porquê celebrar a esperança, se podemos avançar já para o
seu cumprimento? Neste Jubileu da Esperança, façamos do Advento um verdadeiro tempo de graça jubilar.

Abraão e Maria de Nazaré

Os grandes modelos bíblicos de esperança e de Advento são o nosso pai Abraão e a nossa Mãe Maria.
Ambos souberam esperar contra toda a esperança, com fé inabalável, aquela fé que tudo alcança. A Deus,
nada é impossível, disse o Senhor a Abraão e disse o Arcanjo a Maria. Abraão, passada a idade de ter filhos,
e Maria, virgem, acreditaram no dom do filho, e receberam-no. Mais tarde, diante da morte – Abraão em
Moriá, Maria no Calvário -, acreditaram no dom da ressurreição, e ambos receberam os seus filhos de volta,
como nos explica o autor da Carta aos Hebreus (11, 19). Como não havemos nós de dar tempo, e tempo
litúrgico, à esperança?

Contra toda a esperança

É fácil ceder à tentação do desespero. Olhando em volta, e não é preciso enumerar, vemos tudo o que já não
era suposto acontecer, dois mil anos depois do primeiro Natal. Mas o Evangelho diz-nos que a luz surgiu no
meio da noite, que a semente morre para depois brotar, que os últimos serão os primeiros, e tantos outros
paradoxos próprios do divino. É, portanto, precisamente aí, na noite, na morte, no último lugar, que o Natal
irá acontecer – se lhe dermos tempo.

Penso naquele aluno de quem me apetecia desistir, e que aula após aula entrava sem mochila e de boné, para
ser encaminhado à Direção por mau comportamento ao fim de alguns minutos – e que de repente, num dia
desta semana, entrou, abriu a mochila, sentou-se, e fez os registos necessários, para depois, antes de sair no
final da aula, me perguntar com um sorriso envergonhado: “É assim que quer?”

Penso naquele adolescente que ia sempre contrariado à missa, mas de quem os pais nunca desistiram, e a
quem não permitiam faltar – e que hoje é bispo entre nós.

Penso nos nove meses de gravidez, em todos os medos, no pânico de alguns momentos, no cansaço e na
sensação de espera eterna – e como tudo culmina na maior alegria da vida de uma mulher.

Não há parto sem gravidez. Não há Natal sem Advento. Pratiquemos a esperança, que não é mais do que
esta espera alegre de quem sabe que Deus vencerá na nossa vida e no Universo inteiro.

A espera prática

Como se pratica a esperança? Os tempos litúrgicos do Advento e da Quaresma são mais fáceis de viver se
formos concretos e nos dispusermos a cumprir algumas práticas simples. Aprendi com a minha filha Lúcia:
quando está cansada de estudar, vai para a cozinha e faz um bolo, seguindo a receita escrupulosamente. A
matéria de estudo pode ser complexa, mas a receita culinária é simples de seguir: misturar a farinha, juntar
os ovos, acrescentar o leite… Passo a passo, o sucesso é garantido – e saboroso. E parece que depois é mais
fácil praticar a mesma técnica com os estudos. Proponho então, como quem cozinha, dois passos simples:

Primeiro, descubramos a arte da espera. Hoje, já ninguém espera: quando temos cinco minutos na fila do
supermercado, quando aguardamos que a família se despache para sairmos, quando estamos no trânsito,
quando caminhamos pela rua, o que fazemos? Pegamos no telemóvel e deixamos que o mundo e a Internet
nos entretenham. Na própria missa há gente de telemóvel na mão nos momentos que consideram “mortos”,
como sejam os minutos antes da missa começar ou o tempo de canto. O desafio é aprender a esperar. Temos
meio minuto sem nada para fazer? Resistamos à tentação de meter a mão no bolso para pegar no telemóvel
e, simplesmente, esperemos. Precisamos de fazer espaço interior para que o Senhor nos fale, suscite em nós
um pensamento, coloque uma imagem real diante dos nossos olhos para contemplar.

Segundo, procuremos na nossa vida os lugares de desesperança. Em que é que deixámos de acreditar e
esperar? No amor conjugal? Na conversão do esposo? Na conversão dos filhos? Na família? Na cura de
traumas, medos, doenças? Na Igreja? Na paróquia, no pároco, nos catequistas? Na escola, nos professores,
nos funcionários? No país, nos políticos, no governo? Eu sei bem que lugares são estes na minha vida, e sei
que cada um terá os seus. Coloquemo-nos nestes lugares espirituais sem pressa, em oração, mãos abertas
sobre o colo, como quem espera… E deixemos que Deus nos desafie em ondas de paz e de confiança.
Porque é precisamente aí, nesse lugar dentro de nós, que Ele quer nascer neste Natal.

Compromisso – dando glória a Deus

Dois pequenos gestos, duas práticas orantes muito simples, e o Advento será verdadeiramente um tempo de
esperança. Então, de repente e depressa demais como sempre, será Natal. Ámen!

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