Nos bastidores do Evangelho

“E aconteceu, depois disto, que andava de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus; e os Doze iam com ele, e algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demónios; e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras que O serviam com os seus bens.” (Lucas 8, 1-3)

A equipa feminina do Reino de Deus

Quando pensamos em Jesus anunciando o Reino de Deus de povoação em povoação, pensamos de imediato na sua equipa de doze Apóstolos. Mas três curtos versículos de Lucas levantam discretamente o véu sobre um outro grupo de discípulos: as mulheres. Nas suas muitas idas e vindas, Jesus andava acompanhado de mulheres que O seguiam e O serviam “nos bastidores”, com amor. E segundo Lucas, eram “muitas”.

Há uns tempos, na nossa Oração Familiar, demos com estes três versículos de Lucas. E bem-dispostos, fomos divagando: será giro, um dia, no Céu, encontrar por exemplo Joana e perguntar-lhe qual o prato preferido de Jesus? Ao longo de vinte séculos de Cristianismo, não demos suficiente atenção a estas mulheres. Senão, certamente teríamos por aí a “Padaria Santa Suzana”, a “Retrosaria Maria Madalena”, o “Restaurante Sogra de Pedro”, e até, quem sabe, a “Fotografia Santa Verónica”? Entre gargalhadas, a nossa Oração Familiar daquela noite levou-nos por caminhos novos. Falámos em Marta e Maria de Betânia; na esposa de Pedro, que Paulo refere em 1Coríntios 8, 5 (já tinham reparado? Eu só recentemente!); nas muitas mulheres que ajudaram Paulo no seu ministério. Não se trata, portanto, apenas de mulheres que Jesus resgata da má vida, da doença, do demónio, e que depois saem de cena, mas de mulheres que trabalham a seu lado, servindo-O, cozinhando, costurando, lavando, cuidando de todos os detalhes dos “bastidores”.

Só recentemente, com séries televisivas como The Chosen, ou nas obras de teologia de pendor mais feminista, é que este grupo de mulheres ganha visibilidade, servindo Jesus com os seus bens, os seus talentos, o seu tempo, a sua generosidade. Entre elas, estaria certamente, pelo menos algumas vezes, a sua Mãe. Estas mulheres têm uma coisa em comum: a gratidão. Pois todas, diz-nos Lucas, tinham sido de alguma forma curadas por Jesus. E não há melhor forma de agradecer a Jesus a salvação que Ele nos traz do que segui-Lo e servi-Lo com amor.

Nos bastidores do Reino

E é aqui que eu queria chegar: o nosso trabalho – feminino e masculino – “nos bastidores”, na invisibilidade das nossas casas, é tão essencial para o crescimento do Reino de Deus como o trabalho na linha da frente, de evangelização direta, na paróquia ou em missão. Precisamos de meditar profundamente neste mistério, que hoje, continua pouco iluminado, como o trabalho de Joana, Suzana ou da mulher de Pedro nos Evangelhos. Cozinhar, cuidar da roupa da família, pagar as contas da casa, ir à reunião de pais na escola, responder no
grupo de pais do Whatsapp, fazer as compras da semana, e um milhão de outras pequenas tarefas bastante cansativas e, às vezes, irritantes, é um ato de amor para com o Senhor, que vive em nossa casa. Assim também com o nosso trabalho profissional, em qualquer área, por mais insignificante que nos pareça: “Tudo o que fizeste ao mais pequenino dos meus irmãos, a Mim o fizeste” (Mt 25, 40).

Trabalho sagrado

Quantas vezes procuramos no trabalho da paróquia, a visibilidade que não temos no trabalho do lar? Quantas vezes nos agarramos aos pequenos poderes que nos estão disponíveis na vida da Igreja, ou nos refugiamos em reuniões e encontros, para fugir à monotonia da vida familiar? Alguns, se pudessem, até marcavam uma “Hora Santa” ali pelas seis da tarde, para não estar em casa naquela “hora de ponta” familiar que todos bem conhecemos…

Talvez muitos pais e mães, durante uma ou duas décadas de vida em casal, não tenham tempo para ser catequistas, ou para desempenhar outros papéis na sua paróquia, sem pôr em causa o tempo essencial para a família. Há um tempo para tudo, bem diz Coelet… Mas se levarem o seu papel a sério, estão a realizar a tarefa mais sagrada por excelência: servir Jesus na família. Da mesma forma, qualquer profissão que realizemos, se feita com a consciência de que estamos a servir Jesus, é uma missão do Reino de Deus. Porque é na normalidade da nossa vida que o extraordinário acontece, e Deus Se faz Presente entre nós.

Compromisso

Como a equipa feminina do Evangelho, também nós temos mil razões para estarmos gratos ao Senhor. E também nós queremos agradecer a salvação que Ele nos dá, servindo na humildade dos trabalhos essenciais, mas invisíveis, do dia-a-dia. Fiquemos especialmente felizes quando, como as santas mulheres, o nosso trabalho não merecer mais do que três versículos de atenção por parte dos outros: para Deus, isso é uma bem-aventurança! Ofereçamos-Lhe tudo, rezando não apenas com palavras, mas com a nossa dedicação.

Ajudemos os mais novos a reparar no trabalho invisível da mãe ou do pai em casa, a agradecer o almoço à cozinheira da cantina na escola, a oferecer-se generosamente para pequenos serviços pouco interessantes.

Durante este mês, que as nossas famílias tomem como padroeiras as santas mulheres que serviam Jesus “nos bastidores”, e que escreveram o Evangelho, não com palavras, mas com o seu serviço. Ámen!

(versão para impresão)

2 Comments

  1. Bom dia Família Power
    Que importante é destacar o valor ( que por ora não conheceremos na totalidade) dos pequenos “nadas” que povoam o nosso quotidiano!
    É uma tentação diabólica andar sempre à cata da notoriedade (mesmo quando queremos ser humildes) e do apego ao “click” informático.
    Grata por esta partilha/ensinamento

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