O curso do deserto

“Encontrei a David, filho de Jessé, homem segundo o meu coração que em tudo fará a minha vontade.” (At 13, 22)

As histórias do Rei David estão tão cheias de ensinamentos, que seria uma pena não nos focarmos nelas neste mês, em que a liturgia no-las oferece em porções diárias. No meio das tempestades que têm assolado no nosso mundo, tanto climáticas, como políticas e sociais, vamos olhar para este Rei “segundo o coração de Deus” (1Sm 13, 14) e aprender com ele e as suas tempestades.

David foi ungido Rei em 1Samuel 16, mas só assumiu o trono anos depois. Porquê este espaço entre a unção e o reinado? Porque foi preciso tempo para Deus transformar o pequeno pastor em rei. Foi preciso, diríamos nós, frequentar um curso especial: o curso do deserto. É o mesmo curso que Deus ofereceu ao povo hebreu entre o Egito e a Terra Prometida, e que nos oferece a nós durante a maior parte da nossa vida. Que lições aprendemos neste curso? Vamos ver algumas.

Ovelhas, leões e ursos

David era ainda uma criança quando enfrentou Golias com cinco pedrinhas e venceu. Mas onde aprendera ele a lutar assim? Ele mesmo o explica: “Quando o teu servo apascentava as ovelhas de seu pai e aparecia um leão ou um urso que arrebatava uma ovelha do rebanho, eu o perseguia e o atacava e arrancava a ovelha de sua goela; e se vinha contra mim eu o agarrava pela juba, o feria e matava. O teu servo venceu o leão e o urso, e assim será com este incircunciso filisteu.” (1Sm 17, 34-36) Com as ovelhas, David aprendeu a cuidar; com os leões e os ursos, aprendeu a lutar. Foram estas rotinas simples de pastor do seu tempo que o prepararam para as grandes lutas de Estado. Também nós aprendemos em casa a arte do cuidado: os pais a cuidar dos filhos, os irmãos uns dos outros e, por fim, os filhos a cuidar dos pais. E aproveitemos cada pequena dificuldade da vida, cada pequeno desafio, para nos prepararmos para as grandes lutas que nos aguardam em algumas curvas da estrada. Ajudemos os filhos a fazer o mesmo enquanto ainda são crianças como David, evitando retirar-lhes todos os obstáculos do caminho, preferindo trabalhar a sua resiliência.

Um bando de fugitivos que se transforma num exército

Durante o reinado de Saul, David viveu muitas vezes refugiado em cavernas no deserto. Vinham ter com ele “todos os endividados e todos os descontentes”, e foi assim que “ele reuniu cerca de quatrocentos homens.” (1Sm 22, 2) David recebeu um exército, não de valentes, mas de aflitos; não de ricos, mas de pobres; não de poderosos, mas de homens despojados de toda a espécie de poder.Quantas vezes nos sentimos assim, num deserto desolado, as nossas esperanças enterradas numa caverna qualquer, e despojados de poder, prestígio, força ou capacidade? E, no entanto, foi assim que Deus formou o exército de David, como mais tarde, o “exército” de Jesus. Porque havia de ser diferente connosco? Aprendamos a lição e ensinemo-la aos nossos filhos, quando eles sentirem a tentação de ser “influencers” ou de se associar aos poderosos em qualquer área da sua vida.

Uma gruta e uma espada

No deserto, em 1Sm 24, David teve a oportunidade de matar Saul – mas não o fez. Em vez de escolher o poder de matar (não é todos os dias que o inimigo está agachado numa gruta a fazer as suas necessidades!), David escolheu o poder de perdoar. No deserto, Deus preparava-o assim para a grande luta da sua vida, anos mais tarde, quando terá de ser capaz de perdoar ao seu próprio filho, a muitos outros inimigos e, acima de tudo, a si mesmo. Aprendamos com ele a perdoar sempre, sejam inimigos, seja a nossa própria família, sem nos esquecermos de nos perdoar a nós próprios. Então seremos capazes, como David, de acolher o perdão restaurador de Deus, que nos fará santos.

Os salmos do deserto

Foi no deserto que nasceu a música de David. Pastoreando o seu rebanho, preparando-se pedindo perdão a Deus, suplicando auxílio, desabafando, chorando, louvando e agradecendo – David cantava. As suas canções divinas estão compiladas no coração da Bíblia, ali mesmo quando partimos a Bíblia ao meio como pão para saciar a fome. Chamam-se salmos. E em pequenas notas sob o título do salmo, as epígrafes, percebemos um pouco do contexto: “Salmo 59 (58). Contra os ímpios. De David. À meia-voz. Quando Saul mandou vigiar a sua casa para o matar”. “Salmo 57 (56). No meio dos leões. De David. Quando ele fugia de Saul na caverna.” “Salmo 54 (53). De David. Quando os zifeus foram dizer a Saul: ‘Não está David escondido entre nós?'” “Salmo 142 (141). De David. Oração que fez quando estava na caverna.” Aprendamos com David a rezar sempre, mantendo um diálogo constante com o Senhor, coração aberto sem filtros. E ensinemos os filhos. “Nós, Jesus!”

Compromisso

As lições do deserto de David, antes de ser publicamente rei, podem ser as nossas, e não é preciso que soframos nenhuma catástrofe. Bastam os cuidados de cada dia, como dizia Jesus (Mt 6, 14). O curso do deserto irá preparar-nos para, como David, reinarmos um dia no Reino de Deus. Ámen!

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