A Palavra, a chuva e a neve

“Assim como a chuva e a neve descem dos céus e não voltam para eles sem regarem a terra e
fazerem-na brotar e florescer, para ela produzir semente para o semeador e pão para o que
come, assim também ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não voltará para mim vazia,
mas fará o que desejo e atingirá o propósito para o qual a enviei.” (Isaías 55, 10-11)

Eis mais uma Quaresma, eis mais uma oportunidade de conversão! O nosso Deus é, na verdade, o
Deus das segundas, terceiras e inumeráveis oportunidades, o que nos deve encher de esperança.
Ainda podemos vir a ser santos! Ponhamo-nos então a caminho.

A chuva e a neve

Quando, no passado, lia esta passagem das Escrituras, o meu espírito povoava-se de imagens
românticas de chuvas suaves e cumes nevados. A Palavra de Deus, assim comparada, surgia em todo
o seu esplendor, fresca e resplandecente de alvura.
Mas este inverno trouxe um novo entendimento. A chuva que caiu foi tudo menos suave, e os cumes
nevados por esse mundo fora não foram sinónimo de brincadeiras leves. Bem pelo contrário! Chuva
e neve trouxeram destruição, perigo, aflição, sofrimento e morte. Por onde a tempestade Kristin
passou – e, como ela, outras ainda mais violentas pelos vários continentes -, ficaram aldeias
arrasadas, florestas destruídas, vidas partidas. Como comparar a Palavra de Deus a chuvas torrenciais
e a avalanches, capazes de levar tudo pela frente?
E contudo, a primavera que agora desponta traz abundância de vida e cor. As barragens transbordam,
as fontes cantam, as flores brotam, os animais saem para pastos verdes e fartos, onde não vai haver
fome no verão. A mesma água que matou, vivifica; a mesma neve que destruiu, restaura. E confirmase a verdade do ciclo da água (que Isaías já conhecia!): ela não volta sem ter cumprido a sua missão.

A Cruz e a Páscoa

O mistério da Páscoa é muito semelhante: como olhar para uma Cruz e um Crucificado e gritar de
alegria? Que religião de loucos a nossa, já dizia São Paulo! Em vez de escondermos, envergonhados,
a imagem do suplício daquele a Quem chamamos Filho de Deus, exibimo-la, com santo orgulho, ao
peito ou pelas ruas das nossas terras. As vergastadas, os espinhos, os golpes, as marteladas, são uma
tempestade furiosa que tudo tentou destruir. E aparentemente, venceu, pois o Crucificado morreu
pendurado na sua Cruz. Mas depois chegou a primavera e, com ela, a Páscoa. Ele ressuscitou!
Aleluia! As fontes da salvação transbordam e cantam, e nos campos assim regados de sangue justo,
brota o Pão da Vida. Neste verão que Jesus inaugurou, não haverá fome.

A Palavra e a vontade de Deus

Gostaríamos que Deus agisse na nossa vida com a suavidade de uma chuva de verão, ou com a
ligeireza de uma brincadeira numa encosta nevada. E muitas vezes, assim faz. Mas outras, Deus
irrompe na nossa vida como uma tempestade, alagando os nossos planos, levantando o telhado da
nossa casa e deixando a descoberto o que temos de mais precioso, derrubando de uma vez só todas as
árvores que ajudámos a crescer durante anos a fio. Uma doença, uma crise no trabalho, um
despedimento, uma decisão que corre mal, uma traição, um fracasso, e mais outro, e outro ainda. O
coração parte-se, e parte-se de novo, e não tem como sarar. É Deus que passa?
Nada acontece que não seja desejado ou permitido por Ele. Onde só vemos fracasso, dor e morte de
inverno, Deus já vê a fertilidade, a abundância e a vida da primavera seguinte. O ciclo da água é o
ciclo da sua Palavra. A ressurreição de Jesus é o sinal mais seguro de que o Bem triunfará e, um dia,
tudo fará sentido na eternidade do Amor que é o Céu. Não nos aflijamos, pois, quando a nossa vida
parece atolada na lama das cheias ou derrubada por furacões incontroláveis: Deus sabe o que faz!

Mãos à obra

Se a tempestade Kristin trouxe a destruição, ela trouxe também a revelação do que de melhor somos
capazes. De norte a sul do país, as pessoas mobilizaram-se e muitos deram-se a si mesmos para que
outros recuperassem das suas perdas. Os que sofreram na tempestade, descobriram dentro de si uma
força que não conheciam, e talvez nem saibam como foi possível manter a calma e encontrar a
alegria para recomeçar. Na manhã imediatamente a seguir à tempestade, já os bombeiros e outras
equipas de proteção civil se mobilizavam para fazer a limpeza das ruas. É assim que Deus nos quer:
quando Ele nos visitar com provações, não baixemos os braços; procuremos dentro de nós a força da
graça que nos faz recomeçar e reconstruir, sempre, sem hesitar nem deixar para depois; e olhemos
em volta, para ver quem está pior do que nós e a quem podemos servir.

Compromisso

Nesta Quaresma fixemos o nosso olhar na Cruz, rumo à Páscoa. E quando tropeçarmos nalguma
dificuldade, pequena ou grande, pensemos no ciclo da água e da Palavra: graças a esta dificuldade, a
nossa “primavera”, aqui ou na eternidade, vai ser mais rica. Ámen!

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