“Moisés disse ao Senhor: «Se não vieres Tu mesmo, não nos faças sair daqui. Como se poderá saber que
encontramos graça aos teus olhos, eu e o teu povo? Não será por vires connosco?»” (Ex 33, 15-16)
Vem connosco!
Os povos antigos eram mais crentes do que nós, e o seu panteão de deuses era uma autêntica epopeia. Gregos ou romanos, babilónicos ou persas, todos os povos da Antiguidade acreditavam no poder dos deuses, que punham o mundo a girar. Mas nenhum povo era mais ousado do que o povo hebreu. Este povo pequenino, sem exército nem realeza, tinha um privilégio único na História: o seu Deus (até nisso eram pobres: só um!), caminhava com eles, e distinguia-Se de todos os outros deuses precisamente por Se misturar com o seu povo com simplicidade e carinho. Onde é que se viu igual?!
Falando com o Senhor sobre o monte Sinai, Moisés tem mesmo a ousadia de Lhe pedir: Caminha connosco! Moisés sabe que é esta a diferença entre o seu povo e todos os outros: Deus entre nós. Antes de ser
omnipotente e omnisciente, Deus é omnipresente. A sua presença faz d’Ele o Emanuel, Deus-connosco.
A partir de Jesus, a presença divina tornou-Se Carne, Corpo. Nem nos seus sonhos mais ousados, Moisés teria imaginado tal coisa! O Deus que caminhou com o povo durante quarenta anos de deserto, o Deus que habitava a Nuvem e a Coluna de Fogo, mas que ninguém podia ver sem morrer – esse Deus omnipresente tornou-Se realmente, materialmente presente entre nós! E todos puderam contemplar o seu rosto.
Corpo de Deus
Celebrámos nesta quinta-feira a solenidade magnífica do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, a que vulgarmente chamamos “Corpo de Deus”. Trata-se disso mesmo: Deus tem um Corpo, como qualquer um
de nós, um Corpo Humano e, portanto, feito de matéria e de espírito, ou alma. Esse Corpo humano é, contudo, também divino, e é por isso que lhe chamamos Corpo de Deus. A partir do mistério da Encarnação,
Morte e Ressurreição de Jesus, nunca mais Deus deixou de ter um Corpo.
No Céu, a partir da Ascensão, Deus está presente com o seu Corpo, e não “apenas” de uma forma espiritualizada. E na Terra? Subindo ao Céu em Corpo, terá Jesus ficado na Terra “apenas” de forma espiritual, como ao longo do Antigo Testamento? Nada disso! Nós, católicos, somos uns sortudos, porque sabemos onde encontrar Jesus corporalmente: Na Eucaristia. A Hóstia e o Vinho consagrados são, como aprendemos, o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus. De joelhos, adoremos!
Neste dia em que celebrámos o Corpo de Deus, imitámos o povo hebreu e fizemo-nos à estrada com Deusno meio de nós, numa caminhada a que chamamos procissão. A diferença é que Deus não ia na Nuvem, de forma imaterial e intocável, mas na própria matéria – uma hóstia frágil, um pouco de farinha, pedaço de pão.
Não é fácil acreditar nesta Presença Real de Deus entre nós. É tão difícil, que fazemos de tudo para acomplicar. Mas Deus quis fazer-Se pão, e o pão deita migalhas, e as migalhas são frágeis e podem cair ao
chão, e o pão é para ser levado à boca com as mãos, e deve ser mastigado para ser comido – tudo coisas que assustam os mais distraídos. Mas os que estão atentos sabem que o milagre consiste precisamente nisso:
Deus escolheu a fragilidade e a humildade para Se fazer Presença na nossa vida, pelo que Lhe estragaríamos o sonho, complicando o que Ele simplificou. A nossa falta de jeito não O pode magoar.
Mas magoa-O a sério a nossa falta de amor! Cada vez que comungamos “sem discernir o Corpo”, como nos diz São Paulo, ou seja, sem nos darmos conta de que o Sagrado Coração do nosso Salvador pulsa em cada
Hóstia; cada vez que comungamos distraídos ou indiferentes, de coração frio ou altivo; cada vez que comungamos porque tomos comungam, e nos colocamos na fila com um encolher de ombros; cada vez que comungamos, mas vivemos longe d’Ele em cada dia, aí sim, estamos a ferir mortalmente o nosso Deus.
Deus-connosco
Cada dia, ao acordar, abro a janela do meu quarto e lanço o olhar sobre a igreja matriz. É lá que mora Jesus Eucarístico, o meu vizinho, Deus que Se faz próximo, que gosta de “armar a sua tenda” entre nós. Cada dia,
ao acordar, deixo-me tomar pelo milagre: o Altíssimo fez-Se Baixíssimo, o Todo-Poderoso fez-Se pedaço de pão, o Senhor do Universo é meu vizinho, neste “confim da terra”! Para O encontrar, para experimentar o
Céu aqui na Terra, não preciso de ir à Galileia ou a Jerusalém, nem de viajar para o tempo dos Apóstolos; não preciso de ir a Roma ou a Fátima, nem de pagar bilhete algum – basta-me fazer uma pequena caminhada
de alguns minutos e entrar nesta casa do meu bairro a que chamamos igreja. E lá está Ele!
Aos domingos, com a minha família, comemos deste Pão de Vida eterna, unindo para sempre os nossos corações ao seu Sagrado Coração, e trazemos Deus para casa e para a vida de todos os dias. E assim vamos caminhando, domingo após domingo, nós com Ele e Ele connosco: “Nós, Jesus!”
Compromisso
Junho é o mês do Sagrado Coração, o Coração que pulsa de amor por cada um de nós na Eucaristia. Façamos deste mês, um mês de verdadeira descoberta do milagre da Eucaristia, em toda a sua profunda simplicidade. E ajudemos as crianças a descobrir o privilégio de caminhar ao lado de Deus. Ámen!

A grandeza de um povo está em reconhecer o seu Deus como o Único e Omnipotente e levá-Lo a todos os recantos da Terra, com a linguagem única que Ele mesmo lhe (nos) ensinou, a do Amor…
O resto são as pobres formas que cada um de nós ensaia de O louvar, de O dizer… e que o Seu corpo habite em nós nesse Milagre tão singelo, que nos é dado a cada eucaristia!