“Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o
Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim. Durante a ceia, quando o
Diabo já tinha lançado no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, a decisão de o
entregar, Jesus, sabendo que o Pai tudo lhe colocara nas mãos e que de Deus saíra e para Deus
voltava, levantou-se da mesa, tirou as vestes e, tomando uma toalha, atou-a à cintura. Depois
deitou água na bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a secá-los com a toalha que tinha
atado à cintura.” (Jo 13, 1-5)
O Lava-Pés
Na nossa paróquia, por razões muito antigas, não se fazia Lava-Pés na noite de Quinta-feira Santa.
Este ano, pela primeira vez em muitas décadas, voltou a fazer-se. O nosso pároco pediu-me com
antecedência que falasse ao meu grupo de crismandos do significado do Lava-Pés e lhes
comunicasse que eram eles os felizes escolhidos. Assim fiz.
A reação foi de total surpresa: o senhor padre vai lavar-me os pés? Contei-lhes da reação de Pedro
perante o gesto de Jesus. É, de facto, surpreendente que alguém a quem tomamos por mestre se baixe
diante de nós e nos lave os pés! A custo, consegui convencê-los. Ajudou, claro, ter omitido um
último detalhe: o beijo. Não quis deitar tudo a perder…
Quando chegou o grande momento, na Eucaristia de Quinta-feira, eles lá estavam, pés bem cuidados,
unhas limadas e (algumas) pintadas, prontos para o ato histórico da paróquia. Pareciam relativamente
confiantes. Até que o senhor padre beijou o primeiro pé… Um murmúrio de atrapalhação percorreu o
grupo, e eu sorri interiormente, feliz por lhes ter omitido essa informação. Já é suficientemente difícil
acreditar que o senhor padre nos lava os pés, em nome de Jesus. Mas que os beije?
Amou-os até ao fim
No final da Eucaristia, a comoção era geral entre jovens e menos jovens. O nosso padre querido,
velhinho, mestre de toda a vila e arredores, lavou os pés aos crismandos, em nome de Jesus! E
naquele gesto, o nosso padre não era mais o nosso padre, era o próprio Senhor Jesus! Como é que
Deus ama assim? “Malta, vocês não vão acreditar no que me aconteceu”, publicava uma destas
jovens nas redes sociais. “Se quiserem provar o vosso amor por mim, têm uma fasquia muito alta!
Alguém me amou ao ponto de me levar os pés e os beijar!”
A cerimónia do Lava-Pés, assim recuperada na nossa paróquia, teve o sabor de novidade.
Acostumámo-nos a algumas rotinas e deixámos de as ver. Mas os sinais litúrgicos existem para que
todas as rotinas se transformem em rituais, todas as coisas antigas, em feliz novidade.
Nunca deixemos de nos maravilhar diante do amor de um Deus que, por nós, faz as maiores
loucuras. Um Deus que não nos lava apenas os pés já bem lavados, num gesto simbólico, mas que
nos lava os pés cansados, sujos, maltratados do caminho, os pés que tantas vezes nos levam para
longe d’Ele, os pés que tantas vezes desistiram de caminhar. Deus lava os pés dos que caminham
para longe de casa, dos emigrantes, dos pobres, dos refugiados, dos perseguidos; Deus lava os pés
dos pecadores, dos desprezíveis, dos que ninguém quer saber. Lava-os, enxuga-os e beija-os… Deus
amou-nos até ao fim, diz o Evangelho.
A Páscoa
A Páscoa só faz sentido para quem viveu a Quaresma e toda a Semana Santa. Como o parto só faz
sentido depois da gravidez. O Lava-pés é a outra face da mesma moeda que é a Ressurreição. Porque
só um amor até ao fim vence a morte. Um amor pela metade, que não dá tudo, que não doi, que não
arrisca a própria vida, não é capaz de enfrentar a morte, muito menos de a vencer. Somos um povo
pascal se formos um povo que lava os pés. Que adianta cantar aleluias se não nos debruçarmos sobre
os nossos irmãos para lhes lavarmos os pés? A ressurreição não é apenas a vida para lá do horizonte,
é a vida aqui e agora do amor que ama até ao fim. Praticando o Lava-Pés na vida de cada dia, iremos
descobrir que estamos, já, ressuscitados, habitantes da eternidade de Deus aqui e agora, sempre.
Compromisso
O gesto do Lava-Pés não nos costuma ocupar o pensamento depois do Tríduo Pascal. Associamo-lo a
uma atitude de penitência, não da alegria da ressurreição. Mas foi este o gesto que, a par da
Eucaristia, o Senhor nos deixou em testamento, antes de morrer e ressuscitar! Foi este o gesto que, a
par da Eucaristia, o Senhor quis que nos definisse como cristãos. Assim, o Lava-Pés é sobretudo um
gesto pascal.
Neste tempo pascal que agora começa, vamos debruçar-nos diante dos da nossa casa, do nosso
bairro, da nossa escola, da nossa terra, e “lavar os pés” a todos, multiplicando gestos de serviço,
dando a vida nas rotinas simples de cada dia. Debruçados, abaixados, humilhados, seremos
verdadeiramente, como Cristo Jesus, ressuscitados. Ámen! Aleluia! Aleluia!
