Em Caná da Galileia...


A lição do perdão

Muitas coisas me tocaram durante toda a operação de resgate dos meninos da Tailândia. Tocou-me a serenidade, a gratidão e a paciência contínuas dos adolescentes, tocou-me a ausência de ataques de pânico. Tocou-me a prontidão da ajuda internacional, a rede de oração mundial, o voluntariado intenso. Viveram-se momentos raros de compaixão à escala mundial, que não deverão ser esquecidos.

Mas houve um ponto em particular que me tocou:

Quando se descobriu que os meninos estavam encurralados na gruta por culpa do treinador, a maior parte dos comentários à minha volta, neste cantinho ocidental onde vivemos, foi semelhante: “O rapaz deve ser psicopata!” “Onde é que se viu, levar adolescentes para uma aventura tão perigosa?” “Certamente não o fez sem ter os termos de responsabilidade dos pais, as assinaturas todas direitinhas!” “Quando sair, vai estar metido em apuros!” “Ah, se fosse com o meu filho, aquele rapaz não tornava a ver a luz do dia!” Pouco a pouco, à medida que se foi conhecendo melhor o contexto da vida daqueles meninos, especialmente a história de vida do treinador, a atitude foi mudando. Mas só aparentemente, porque no fundo, o sentimento de que “se fosse comigo, ele ia ver!” permaneceu.

Graças a Deus, não foi connosco, ocidentais, mas com um povo bem mais simples, onde certamente não se assinam termos de responsabilidade nem se procuram culpados para aquilo que são apenas acidentes. Uma sociedade que, ao contrário da nossa, ainda tem a coragem de arriscar, pois aqui entre nós, ocidentais, já pouco se arrisca, da saúde ao desporto, e a simples boleia que um professor ofereça a um aluno, por pura generosidade, gera perguntas como: “Deste a assinar algum termo de responsabilidade? Se acontece alguma coisa…” (Não, não estou a exagerar)

E este povo simples deu-nos uma lição: “Não se preocupe com o que aconteceu. Foi um acidente. Não estamos zangados consigo”, escreveram os pais.

Uma sociedade de tradição budista a ensinar o perdão a uma sociedade de tradição cristã. Devíamos sentir vergonha, nós que recebemos de Jesus crucificado o mandamento do perdão!

E do perdão que somos desafiados a dar aos nossos irmãos, o meu pensamento elevou-se para o perdão que o Senhor nos concede…

Imaginemos que o governo tailandês chegava agora ao pé do jovem treinador e lhe apresentava a conta a pagar? Seria, claro, impensável, pois nem o trabalho de dez vidas como a sua alguma vez cobriria a conta de toda a ajuda internacional e todos os meios acionados. Já para não falar da compensação impossível de fazer pela vida do mergulhador morto em serviço voluntário… O jovem treinador, sem talvez disso ter consciência, viu perdoada à partida, desde logo, a dívida que contraiu, não por maldade, mas por um erro de avaliação, por um pensamento que lhe atravessou a mente. A vida que tem diante de si é assim uma vida resgatada a esta dívida, uma vida que tem tudo para ser feliz, porque renasce de um perdão imenso e absoluto.

Jesus contou no Evangelho uma parábola muito clara, que certamente todos conhecemos: a do servo a quem o rei perdoou uma dívida de dez mil talentos e que, depois de perdoado, se recusou a perdoar a um seu companheiro, que lhe devia cem denários. A parábola termina assim:

Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque assim mo pediste. Não devias igualmente ter piedade do teu companheiro, como eu tive de ti? E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que devia. Assim procederá convosco Meu Pai celestial, se cada um de vós não perdoar do fundo do coração a seu irmão. (Mt 18, 21-35)

Jesus resgatou-nos pelo seu Sangue, com o custo da sua própria Vida, e nunca nos apresentou a conta. Fomos salvos de Graça! Não, Jesus não morreu apenas pelos grandes pecadores, mas por cada um de nós, que cometemos pecados por simples negligência, por distração, por falta de força de vontade – e como com o jovem treinador, os nossos “pequenos erros” exigem em reparação a morte do Salvador.

A vida que se estende diante de nós nasceu de um perdão imenso e absoluto, quando o Ressuscitado saiu da caverna da morte e nos trouxe a todos com Ele.

Aprendamos a lição do perdão! Se a cruz de Jesus não chega para nos convencer, deixemo-nos ao menos convencer pela generosidade dos budistas tailandeses…

One Comment

  1. Catarina Silva

    Eu fui daquelas que perguntei “Mas como é possível que tenham deixado os miúdos entrar num sítio daqueles? ”
    Depois, com o chegar de mais informação, percebi que é comum lá na Tailândia explorarem as grutas e que tinha sido um acidente…
    Também eu fiquei impressionada e humilhada com a lição de perdão dada por um povo Budista. E também eu me sinto muitas vezes (demasiadas vezes…), envergonhada com as atitudes dos meus irmãos católicos, tão prontos em julgar e em não perdoar… E isso deixa-me tão triste…
    Agradeço a Deus o exemplo de humildade e de perdão, daquele povo não cristão, mas que se comportou de uma forma verdadeiramente cristã, dando uma lição de amor ao mundo inteiro!
    Teresa, como eu gostava que todos os Católicos lessem este texto que escreveu e meditassem bem sobre ele…

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