Em Caná da Galileia...


Domingo III da Quaresma, Ano B

Reflexão semanal sobre as leituras do próximo domingo, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

MUDAR DE ÓRBITA

Quando Copérnico e Galileu afirmaram que afinal não era o Sol a girar em torno da Terra, mas o contrário, o mundo escandalizou-se. Não é fácil renunciar a ser-se o centro! Hoje, a nível científico, ninguém duvida desta verdade. O que seria do nosso pequeno planeta se de repente “decidisse” orbitar em volta da estrela errada?

Precisamos de uma revolução semelhante a nível espiritual. Porque as teorias da Nova Era, difundidas um pouco por todo o lado, dizem-nos que é preciso “centrarmo-nos”, fazendo com que tudo orbite à nossa volta. O prefixo-chave é “auto”: autoajuda, autoestima, autoconceito, auto… Eu. O centro do Universo.

Como o povo hebreu, também o mundo moderno continua a viver nesta “casa de escravidão”. Hoje, como ontem, precisamos de sair do Egito do nosso comodismo para nos lançarmos em órbita – não na órbita do nosso eu, mas na órbita do amor. Então sim, seremos verdadeiramente livres – e felizes.

É esta a proposta das leituras do Domingo III da Quaresma. Vamos aceitar o desafio?

Deixando para trás a escravidão do Egito, o povo de Deus caminhava no deserto, confuso e inseguro. Foi então que, no cimo do monte, Deus entregou a Moisés, como dom do seu amor, a fórmula da liberdade: Os Dez Mandamentos.

Quanto mais avançamos no deserto deste mundo, quanto maior o grau de civilização,  mais necessário se torna regressar à libertação primitiva dos Mandamentos. Dez Palavras que nos lançam em órbita, fazendo de Deus e do seu amor o centro da nossa existência. O amor: o Sol que atrai irresistivelmente a terra de que somos feitos. Um amor vivido em compasso binário, Deus (os três primeiros Mandamentos) e o próximo (os sete seguintes), como uma canção. Haverá lei mais clara que a dos Dez Mandamentos? Bem diz o salmo: “Os mandamentos do Senhor são claros e iluminam os olhos”. Eles simplificam a vida e “dão sabedoria aos simples”, permitindo-nos fazer escolhas honestas. “Os juízos do Senhor são verdadeiros”, sabe-o todo o ser humano que escute a voz da sua própria consciência. No entanto, como vivemos longe deles, complicando a nossa vida e a dos outros, fingindo não os entender!

Perto da Páscoa Judaica, Jesus observava o seu povo no Templo de Jerusalém. Aquele povo era o mesmo povo que todas as semanas meditava no dom da Lei de Deus, o dom dos Mandamentos. Aquele povo fora instruído no amor a Deus e no amor ao próximo como a única fonte de felicidade. No entanto, ali no lugar mais sagrado para um judeu, cada um orbitava em redor de si mesmo, dos seus interesses, dos seus negócios. Há muito que o centro deixara de ser o amor.

Com um gesto intenso e emotivo, Jesus repõe a ordem: “Não façais da casa de meu Pai casa de comércio.” Os judeus – e nós hoje também – ficam escandalizados. Não gostamos que incomodem os nossos negócios, e achamos que podemos fazer as duas coisas ao mesmo tempo: servir a Deus e servirmo-nos a nós mesmos… Será?

Ainda não tinham visto tudo. Ainda não tinham visto aquilo de que é capaz um amor assim, totalmente centrado em Deus e no próximo. Ainda não tinha chegado a hora da radicalidade total, a hora da Cruz. “Destruí este templo”, diz Jesus a quem O escuta. João explica que “Jesus falava do templo do seu corpo.” E este corpo está à nossa disposição, porque Jesus não vive para Si mesmo, mas para nós, numa inversão total da lógica humana.

Que Cristo pregamos nós? “Se seguires Jesus, serás abençoado como Abraão, rico como Salomão, forte como David…” Lemos naqueles pedaços de textos partilhados nas redes sociais, ou escutamos em grandes multidões reunidas por seitas poderosas. Esquecem-se de acrescentar: “Se seguires Jesus, serás crucificado como Ele.” S. Paulo dizia nada mais saber entre nós que Jesus crucificado. A Cruz é o verdadeiro Templo onde Deus habita. Ele, o Todo-Poderoso que o Universo inteiro não pode conter, Ele despiu-Se de toda a glória e grandeza e habita numa Cruz. “Loucura de Deus”, dizemos nós, diz S. Paulo. Loucura, sim! “Mas o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”. Porque depois da Cruz, vem a Ressurreição. “Em três dias restaurarei este templo”. As Dez Palavras que Deus ofereceu no cimo do Sinai ao seu povo abriram um caminho que passa sempre pela Cruz, mas termina na Terra Prometida da eternidade. O amor jamais acabará (cf. 1Cor 13, 8).

Hora da missa. Sobre o altar, o Crucificado deixa-Se destruir pelos nossos pecados, templo que demolimos pedra a pedra, pão que partimos bocado a bocado. De joelhos, adoramos… E logo depois, de pé, proclamamos como S. Paulo que a fraqueza de Deus se tornou força, e a loucura se tornou sabedoria. Ele está vivo! Por breves momentos da nossa semana, a terra de que somos feitos está em órbita à volta do Amor.

3 Comments

  1. Tenho lido sem comentar, mas hoje não posso sair sem escrever. Fez-me muito bem ler este texto, especialmente a parte: “Esquecem-se de acrescentar: “Se seguires Jesus, serás crucificado como Ele.” S. Paulo dizia nada mais saber entre nós que Jesus crucificado.”.Muito obrigada!

  2. Parabéns. Profundo e belo. Que Deus vos abençoe e fortaleça e que a mãe auxiliadora vos inspire e guie.

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