Em Caná da Galileia...


Domingo XXIII do Tempo Comum, ano B

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

LUGARES DE MISSÃO

As leituras deste domingo são para nós, “corações perturbados” deste século XXI, corações feridos pela visão monstruosa do pecado e dos seus efeitos na vida dos mais frágeis.

“Tende coragem, não temais!” Diz-nos o profeta Isaías, consolando o povo exilado na Babilónia; consolando-nos a nós, exilados nas loucuras deste mundo. “Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio em salvar-nos.” Esta é a certeza que nos guia: Deus está perto, sofrendo connosco, escondido nas nossas feridas. E Ele mesmo salvará a nossa geração, como sempre fez com todas as gerações e continuará a fazer com os filhos dos nossos filhos. Não somos salvos pelos nossos esforços, nem pela nossa sabedoria, nem pela nossa justiça, mas apenas pelo Senhor.

Acreditamos verdadeiramente na sua justiça? “O Senhor faz justiça aos oprimidos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor entrava o caminho aos pecadores”, cantamos no salmo. A certeza de que Deus é justo e tudo conduz à perfeição deve encher-nos de esperança e alegria, em qualquer momento da História. O desânimo não é cristão.

Isaías continua, apresentando-nos belas imagens deste amor divino em ação. Séculos mais tarde, Jesus entra na nossa História, e então cai o véu, e as imagens de Isaías ganham carne, tornam-se vida. O amor salvífico deixa de ser uma metáfora futura para ser realidade, aqui e agora, à passagem de Jesus.

O território da Decápole por onde Jesus passava naquele dia era terra pagã, como terra pagã é o mundo de hoje. Assim, era habitada por “surdos-mudos”, gente incapaz de escutar a Palavra de Deus e incapaz de entrar em diálogo com Ele pela oração e pela prática das boas obras. Quantos “surdos-mudos” à nossa volta! Quantas “conversas de surdos” mantemos com quem se recusa a ouvir a verdade!

“Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele”. Não há no Evangelho indícios de que este surdo-mudo desejasse o encontro com Jesus. Apenas sabemos que tinha bons amigos, capazes de o conduzir ao Caminho, à Verdade e à Vida. Levamos os nossos “irmãos surdos” ao Senhor? O Papa Francisco insiste em falar da Igreja como uma Igreja em Saída, uma Igreja Missionária por definição. Qual a nossa missão? Que “surdos-mudos” aguardam a nossa amizade?

Todos, do mais pequeno ao maior, somos chamados a ser missionários. Uma criança evangelizada pode fazer da escola um lugar de missão. Um adulto evangelizado pode fazer do trabalho, da mercearia, do café, das redes sociais um lugar de missão. E nunca esqueçamos que o primeiro lugar de missão que temos é a nossa própria casa. Na cerimónia do batismo, o sacerdote conclui dizendo: “O Senhor Jesus, que fez ouvir os surdos e falar os mudos, te faça em breve ouvir a sua palavra e proclamá-la”. Fazemos “ouvir os surdos e falar os mudos” na nossa casa, desde o momento do seu batismo? Porque se os amigos do surdo-mudo da Decápole tiveram pressa em o conduzir a Jesus, mais pressa devemos ter nós, pais e mães cristãos, em conduzir a Jesus os nossos filhos, começando pela pressa em os batizar logo que nascem, como sugeriu o Papa Francisco na Palavra que dirigiu às famílias no encerramento do Festival das Famílias, em Dublin. “Uma criança batizada é mais forte que uma criança não batizada, pois tem nela o Espírito de Deus”, afirmou. “Abre-te!” Disse Jesus ao surdo-mudo. “Abre-te!” Diz Jesus a cada bebé que é batizado. E embora nada vejamos, o milagre acontece. “Abre-te!” Diz-nos Jesus hoje, pedindo-nos que não nos fechemos sobre as nossas feridas, mas as exponhamos ao ar e ao sol, para que possam cicatrizar.

Jesus não se limitou a pronunciar palavras de salvação diante do surdo-mudo. Com a sua imensa delicadeza, usou de gestos poderosos, para que o surdo-mudo, antes ainda de O escutar, O compreendesse sentindo e vendo. Assim também, não são as nossas palavras apenas a converter e curar os “surdos-mudos” que nos rodeiam. Precisamos de gestos poderosos e coerentes, capazes de significar o que esperamos.

É o que nos diz S. Tiago na sua carta, mostrando-nos como um gesto irrefletido pode ser motivo de escândalo. S. Tiago dá o exemplo, tão próximo de nós, da aceção de pessoas. Não só os mais ricos, mas também os mais pobres, todos tendemos a julgar os outros segundo os nossos preconceitos. Ser cristão não se coaduna com tais gestos! Há que olhar para o coração do homem e não para a aparência, há que olhar para a pessoa e não para o que ela possui. Quanta conversa de café a comentar a vida alheia, quanto exibicionismo no Facebook, quanta inveja no nosso olhar, quanta vaidade no serviço paroquial!

Hora de missa. Deixemos que Jesus nos toque, para que os nossos ouvidos se abram à sua Palavra, para que a nossa boca proclame a nossa fé. “Então as águas brotarão no deserto e as torrentes na aridez da planície”, e os nossos desertos interiores florirão.

Assim curados seremos, neste nosso mundo, instrumentos da justiça e do amor de Deus. Ámen!

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