Em Caná da Galileia...


Domingo XXXIII do Tempo Comum, ano A

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

ARRISQUEMOS!

“Vem tomar parte na alegria do teu senhor!” O ano litúrgico está a terminar. São horas de contemplar a eternidade, onde viveremos felizes para sempre. Não é a promessa de um conto de fadas, mas a Palavra do Senhor. Ámen!

“Um homem, ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens.” Quem é este homem, quem são estes servos, e de que viagem se trata? Pensamos em Deus Pai que, ao criar-nos, nos dotou de dons naturais e, pelo Batismo, de dons espirituais. Mas pensamos também em Jesus, o Filho, Aquele que, antes de partir para o Pai, nos confiou o tesouro do Seu amor, sintetizado no Mandamento Novo.

Os primeiros cristãos viviam na expetativa do Seu regresso iminente. “Vós próprios sabeis perfeitamente que o dia do Senhor vem como um ladrão noturno”, relembra S. Paulo. Dois mil anos depois, já percebemos que a viagem do senhor da parábola é mais longa do que se pensava, e o seu regresso acontecerá “muito tempo depois.” Mas se este regresso parece demorar, ele concretiza-se na nossa vida na hora da morte, “as dores de parto” que nos dão à verdadeira luz. Como nos estamos a preparar para este encontro?

“A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um, conforme a capacidade de cada qual.” A palavra “talento”, que no tempo de Jesus significava uma enorme quantia de dinheiro, vulgarizou-se entre nós como significando os dons naturais de cada um. Vem-me à memória, contudo, um texto de Marcelle Auclair, que, numa biografia de Bernardette Soubirous, procurou exprimir por palavras o que ia na alma da vidente de Lurdes:

“Pela pobreza de meu pai e pela ruína do moinho, pelas ovelhas doentes, graças vos dou, Senhor. Graças, ó meu Deus, pelo comissário, pelos policias, pelas duras palavras de Dom Peyramale. Por aqueles dias em que Vós me aparecestes, ó Virgem Maria. E por aqueles dias em que não aparecestes. Pelas bofetadas e pelos ultrajes. Pela ortografia que jamais consegui aprender, pela memória que nunca tive. Pela minha ignorância e por toda a minha estupidez, graças vos dou, Senhor! Pelas minhas carnes em putrefação, pelos meus ossos com cáries, pela minha febre, pelas minhas dores surdas e agudas. Graças! Por Vós ausente e presente, graças, ó Jesus”.

Talvez estes “bens” que o Senhor confiou aos seus servos não sejam apenas os talentos reconhecidos, mas também a falta deles. Pois não podemos nós, com as nossas dores, frustrações e dificuldades, fazer uma obra prima para oferecer ao Senhor, quando Ele regressar? Que talento magnífico o Senhor coloca ao colo de alguns pais, oferecendo-lhes um filho com necessidades especiais! Que “pérola” (diz os Provérbios) se esconde num trabalho humilde, numa doença incapacitante, no cuidado dos pais idosos, num matrimónio doloroso ou até numa tendência homossexual e na renúncia que ela implica! Estejamos atentos, “vigilantes” como diz S. Paulo, pois os “bens” do Senhor vêm embrulhados das mais estranhas formas.

“Por isso tive medo e escondi o teu talento na terra. Aqui tens o que te pertence”, diz o terceiro servo da parábola, dizem tantos cristãos atuais. Muitos, com medo, usam a religião como uma redoma onde se sentem seguros, e donde não arriscam sair para evangelizar. Logo no ano da sua eleição, numa carta à Assembleia Episcopal Argentina, o Papa Francisco afirmou: “É verdade que uma Igreja que sai pode sofrer as mesmas consequências que qualquer pessoa que sai na rua: ter um acidente. Digo francamente que prefiro mil vezes uma Igreja acidentada a uma Igreja doente” – ou confinada, diríamos hoje. Arrisquemos!

Há ainda quem enterre o seu talento para gerir a sua vida da mesma forma que os pagãos. Faltou-lhe uma educação cristã atenta ao outro, como a que os Provérbios enaltecem em relação à “mulher virtuosa”: “põe as mãos ao trabalho alegremente. Abre as mãos ao pobre e estende os braços ao indigente.” Muitos cristãos são educados nos valores mundanos do egoísmo e das aparências. Mas “a graça é enganadora e vã a beleza”. Por isso se multiplicam os casos de adição de drogas e de suicídios entre os bem-sucedidos na vida, entre os que, aparentemente, puseram a render talentos, da música ao desporto, do cinema à economia. São os efeitos das trevas, diz S. Paulo. A verdadeira felicidade, contudo, só se deixa encontrar pelos “filhos da luz”, por aqueles que, corajosa e diligentemente, põem a render os verdadeiros talentos que o Senhor lhes confiou, atentos ao Mandamento Novo. Canta o salmista: “Feliz de ti que temes o Senhor e andas nos seus caminhos!”

Hora da missa. Hora que realiza, aqui e agora, todas as promessas bíblicas. Jesus, Tu não vens apenas no fim dos tempos nem na hora da morte. Tu vens aqui e agora, na hora mais santa que nos é dada. Trago-Te o pouco que, esta semana, consegui multiplicar dos talentos que me confiaste. Foram coisas pequenas, mas também sei que é a fidelidade nas coisas pequenas que, dentro de alguns minutos, me vai permitir estender as mãos e acolher, entre as grandes, a maior de todas: Tu mesmo…

3 Comments

  1. Bela crónica, como sempre.

  2. Viajei no tempo ao ver esses campos! Que grande que está o Daniel.☺️
    Que bela a oração de Marcelle Auclair. E como é difícil ver o sofrimento e as provações como um talento! Obrigada pela bela meditaçào. 🌹

  3. Que bela reflexão Teresa! Como sempre. Obrigada ♥️

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