Testemunhos


Matrimónio: ser feliz ou ser santo? E alguns ecos do retiro de Advento – parte II

Reflexão da Sónia Santos

É inesgotável tudo que o último retiro permite fazer ecoar nas minhas memórias…

Lembro-me de ser pequena e desconsolarem-me os finais felizes típicos das histórias “casaram-se e viveram felizes para sempre”. Como se mais nada do que vem a seguir importasse. Pensava: “mas os meus pais já casaram há tantos anos e o mais importante, mais marcante da sua história em comum aconteceu certamente depois do dia do casamento”… Quando ocorreram todas as aventuras e alegrias, as conquistas, os sacrifícios e lágrimas em conjunto? Do nascimento do primeiro filho, das “mortes naturais e das mortes contra-natura”, dos batismos apressados e contritos aos baptismos preparados e festivos, da primeira casa, do primeiro carro, da primeira televisão, das tantas discussões sérias e ligeiras, da primeira doença, da segunda, da terceira (…), das várias mudanças de casa, dos filhos na escola, do casamento do primeiro ao quinto filho, do regresso a serem só os dois outra vez, dos netos, etc, etc…

Nas histórias chegava àquele ponto e, de repente, tudo era rosas sem espinhos. Mas o melhor, o mais desafiante da vida ficava por conhecer. A mim dava-me sempre a sensação de uma certa artificialidade ou desonestidade. E ficava cheia de curiosidade sobre que vida teriam aquelas pessoas dali em diante.

Quando entregava os convites para o meu casamento alguém me disse “As maiores felicidades! Que seja o dia mais feliz da tua vida”. E eu, sensível que me era a questão, rapidamente respondi: “Espero que o dia seja feliz, mas espero mais ainda que não seja o mais feliz…”. E a cada casamento de que participo digo: “Fiquem descansados, este não será o dia mais feliz da vossa vida, o melhor está por vir”.

No curso de preparação para o Matrimónio que fizemos, o animador deu início ao curso com uma provocação: “Qual é o vosso objectivo com este casamento, o que esperam alcançar?” Alguém escorregou na casca e disse: “Ser feliz”. O animador explicava depois que então, se essa era a disposição com que partia, o melhor era não se casar já, porque o propósito da noiva quando se casa é que o seu noivo, ele, o outro seja feliz. Cada um dentro do seu casamento tem a elevada responsabilidade, em parceria com Deus, de fazer todos os impossíveis para que o seu cônjuge seja, ele, feliz. Ser feliz que significa para um cristão, chegar ao Céu, chegar a ser santo.

Na missa do dia de todos os santos o nosso pároco no decorrer da sua homilia dizia: “Ser santo não custa nada, é Graça”.

Podemos também dizer: manter o Matrimónio até que a morte nos separe não custa nada, é Graça.

Esta Graça, Deus está sempre disposto a dá-la, nem sempre nós estamos também desejosos ou despertos para a facilidade de a pedir e para a coragem de, apesar de tudo, confiar.

E como também o afirmava o nosso pároco no Domingo em que celebrámos o Cristo Rei do Universo “não é tudo igual”… A Igreja acolher as pessoas separadas, os recasados, tentar tratar as suas feridas não é o mesmo que dizer que é tudo igual.” E exortava à solução ultima e primeira, a oração de toda a comunidade pelas famílias que persistem, e à oração em família para percorrerem o caminho e, assim conseguirem chegar ao fim.

“Há uma palavra que o amor nunca diz. “Já chega”, o amor nunca diz “já chega”, nunca diz “perdoo-te uma, mas não te perdoo duas”. Pelo exemplo de Deus na sua forma de amar nós devemos como Ele perdoar uma e outra vez, e outra, e outra, e outra… E começar de novo. O Amor de Deus por nós nunca disse “já chega”.(Retiro Advento).” E é este, e não outro, que dizemos querer imitar, ser dele sinal. Mais do que isso, é esse amor e não outro que a Igreja nos institui a realizar pelo sacramento do matrimónio.

Houve um imperativo que o padre que celebrou o nosso casamento nos dirigiu vezes sem fim e explorou de todas as maneiras possíveis e que ficou na memória de todos os convidados: “Vocês têm de casar todos os dias”. Todos os dias recomeçar como se estivéssemos novamente vestidos de noivos diante do altar a dizer pela nossa boca “Sim, recebo-te. Sim, ser-te-ei fiel. Hoje também! Hoje outra vez!” Aquele dia em que tudo está por descobrir e em que estamos desejosos de amar até às últimas consequências aquela pessoa, à boa maneira da disposição dos casamentos “arranjados” de outros tempos e outras culturas.

Julgo que na despedida desse primeiro dia não houve um único convidado que não nos tenha repetido aquela ordem em jeito de síntese e brincadeira. Dos mais católicos aos menos católicos. Dos casados há muitos anos aos casados de fresco. Diante da verdade simples ninguém lhe fica indiferente.

“Aí vem o noivo!” Aí vem o dia da minha morte.

Posso eu afirmar que se morrer após este advento já fiz tudo o que devia para receber o Senhor? Posso eu garantir que já fiz tudo o que podia para que o João seja santo? Continuo a caminhar ao pôr do sol de candeia acesa ao seu encontro, umas vezes de rosto por terra, outras vezes de cabeça mais erguida.

Possa eu, quando a minha hora chegar, apresentar-me diante do Senhor e olhá-Lo face a face.

7 Comments

  1. Pilar Pereira

    Que reflexão tão profunda! Ainda cá hei de voltar, para reler. O tempo agora foge-me! Obrigada.

  2. Tão bonito, tão rico e tão pertinente este texto!… Tem muito para eu reflectir e saborear… Muito obrigada pela partilha!

  3. Não sou muito, ou praticamente nada, assídua a comentar, mas gosto muito de passar por este blog. Muito obrigada Sónia por esta reflexão, muito necessária!

  4. Catarina Silva

    Querida Sónia,
    Quando li os seu 1º texto sobre o matrimónio pensei: Não vale a pena dizer nada. O que se pode dizer àqueles que conhecem só alguns tipos de realidade? Vou eventualmente melindrar alguém ou mesmo magoar alguém e isso é absolutamente desnecessário…Quem sou eu para levantar questões a um texto que tenta passar uma mensagem tão bonita?
    Mas depois li o 2º texto sobre o matrimónio e achei que era injusto em algumas observações….Continua a ser uma reflexão muito bonita e com muitas verdades, mas na minha modesta opinião injusta para certas realidades.
    Quando diz: ” Podemos também dizer: manter o Matrimónio até que a morte nos separe não custa nada, é Graça.” Não está a ter em conta, com certeza, as mulheres vitimas de violência doméstica que morrem às mãos de maridos carrascos, nem está a ter em conta a dor das crianças que ficam sem mãe e com um pai criminoso. É que é mesmo um casamento até que a morte os separe….mas, será que Deus “quer” que se mantenha um matrimónio assim? E se fosse uma filha sua? Será que a aconselharia a manter um casamento assim? Será que não a estava a deixar nas mãos do demónio?
    Quando diz: “A Igreja acolher as pessoas separadas, os recasados, tentar tratar as suas feridas não é o mesmo que dizer que é tudo igual.” Será que pensa que um recasado não tem de fazer o mesmo esforço de “perdoar uma e outra vez e começar de novo”? Será que pensa que os recasados podem dizer “já chega”?
    Sónia, na mensagem do retiro de advento onde escreve: ” Há uma palavra que o amor nunca diz. “Já chega”, o amor nunca diz “já chega”, nunca diz “perdoo-te uma, mas não te perdoo duas”. Pelo exemplo de Deus na sua forma de amar nós devemos como Ele perdoar uma e outra vez, e outra, e outra, e outra… E começar de novo. O Amor de Deus por nós nunca disse “já chega”.”
    É a pura da verdade, quando se trata de facto de Amor! E tanto se aplica a casados como a recasados. Nunca pense que os que se casam de novo têm vidas mais “fáceis”, porque isso não tem de ser, de todo, assim.
    Os que se casam de novo por Amor (e aqui é que reside toda a diferença – porque há os que se casam de novo, mas não por Amor) têm de ultrapassar os mesmos obstáculos se querem chegar até Deus. E, acredito eu do fundo do coração, que têm as mesmas oportunidades de Amar o seu cônjuge e de fazer o seu cônjuge feliz todos os dias, tal como a Sónia e o seu marido.
    O que nos define é o Amor que trazemos dentro. E esse, nem eu, nem a Sónia podemos medir. Só Deus pode!
    Um beijinho e não leve a mal, por favor.

    • Querida Catarina, é isso mesmo: há caminhos que só conhece quem por eles caminha. O que em nada retira a beleza da proposta inicial de Deus para a nossa verdadeira felicidade, nem o dever de a anunciarmos, se a conhecemos, pois a quem muito foi dado, muito será pedido!
      O GPS do Senhor, como eu procurei explicar no último retiro, permite-nos sempre reencontrar a rota, refazer o sonho de Deus e chegar ao Céu. Sempre! Com Deus no nosso meio, nunca, nunca chegaremos a um beco sem saída.
      Eu estou profundamente convencida que, no que ao matrimónio diz respeito, Deus me facilitou imenso o caminho. Ele sabia que eu era demasiado fraca para suportar um casamento em que não fosse profundamente amada e respeitada, e por isso, guardou as dificuldades e os espinhos para outras áreas da minha vida. Teria, de facto, a minha fé resistido a um casamento fracassado? Pergunto-me sempre isso, quando escuto histórias assim…
      Que o Senhor nos ajude a encontrar e a reencontrar vezes sem fim o caminho de volta a Casa, sem nunca dizer “Já chega!”

      • Catarina Silva

        Sim Teresa! A sua fé teria resistido a um casamento fracassado. A sua fé resistiu a espinhos que eu, muito certamente, não resistiria.
        Faz me sempre sorrir, quando fala no GPS de Deus. É uma comparação perfeita! O GPS do Senhor fez não me perder no caminho e por isso rezo consigo essa frase tão bonita que escreveu:
        Que o Senhor nos ajude a encontrar e a reencontrar vezes sem fim o caminho de volta a Casa, sem nunca dizer “Já chega!”
        Ámen!

    • Sónia Santos

      Catarina muito obrigada por comentar! Ainda bem que escrevi o segundo texto! E levo muito a bem o seu comentário.

      O que Deus quer? Eu não sei. Pergunto-me sempre isso quando vejo situações de violência doméstica, esta que refere concretamente, mas pergunto-me sempre isso também em situações tão dramáticas como as de morte e doença prolongada e sofrida de crianças, de bebés, de mães jovens que deixam filhos órfãos. Pergunto-me o mesmo também quando vejo as imagens e ouço as histórias terríveis da guerra, de violência, de destruição, de fome… Ou quando vejo as imagens dos refugiados de guerra, de abandono, de medo, de fuga, de risco de vida, de miséria inacreditável…

      Os cristãos não deixam de pregar o evangelho da paz e da esperança a essas pessoas, lá no meio da sua miséria.

      O evangelho do amor e da perseverança e da esperança dirige-se a estes todos. Essa é a única certeza que se pode ter. Chiara Badano quando já estava tão debilitada pela sua doença ela dizia isto mesmo ” já não posso andar, nem correr, nem fazer nada, mas ainda tenho um coração e com ele posso sempre amar”.

      O que que Deus quer? Também a Chiara fez essa pergunta a Jesus, mas foi ela mesma quem deu a resposta: ” Tu queres, Jesus? Então, eu também quero.”
      O próprio Jesus implorou a Deus “se puderes afasta de mim este cálice”, mas ele próprio respondeu “não se faça a minha vontade, mas a Tua” e o que veio a seguir todos conhecemos: violência, tortura, humilhação e morte.

      E no final, lá no cume da violência e da humilhação, o que é que Jesus faz? Implora a Deus o perdão para os seus assassinos “eles não sabem o que fazem”. Ali naquela oração de intercessão pela nossa salvação, Ele, o Noivo, implora o perdão para a noiva.

      Foi com a paixão de Jesus que veio
      a esperança, que veio este amar de uma forma absolutamente inconcebível aos meus olhos terrenos, uma forma louca…

      Os temas do matrimónio e da santidade são gigantes, são temas pelos quais nutro uma admiração infinita e sei que a totalidade desta divindade não está ao alcance das elaborações que eu, ou a Teresa, ou a Catarina possamos fazer. Nós apenas podemos ecoar o que Deus revelou e o que a Igreja nos propõe claramente. São os Santos quem nos ensinam, eles, homens e mulheres como nós que num campo de concentração, num casamento violento, ou numa doença insuportável conseguem alcançar a loucura de amar como Deus ama.

      Eu suportaria um marido violento? Seria capaz de amá-lo? De ter esperança, de dedicar-me a rezar sem termo, de jejuar pela sua conversão, para que se arrependesse e pudesse, apesar disso chegar ao Céu? Seria capaz dessa atitude heroica? Eu não seria capaz. Mas tenho a certeza que se tivesse um mínimo de santidade que me permitisse implorar essa Graça a Deus, que Ele não me a negaria. A atitude heróica não significa, naturalmente que não deva afastar-se da violência, mas pode permanecer na atitude orante pelo seu marido. Esse é o amor ao próximo que não desiste.

      Quanto às segundas uniões, não tenho dúvida nenhuma que a segunda união seja tão desafiante como a primeira. E aqui há muito para refletir…

      A oração que a Catarina repete da Teresa é uma síntese do que escrevi. Que Deus nos dê sempre a Graça de nunca dizer “já chega”! De amar, claro.

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