Em Caná da Galileia...


As barras assimétricas da vida cristã

Nos treinos de ginástica artística, a Clarinha está a iniciar-se nas barras assimétricas. A piscina de esponjas em baixo, as barras por sobre a sua cabeça, o medo e a vertigem a espreitar, a respiração ofegante, o professor a encorajar… Com um salto elegante, a Clarinha agarra a primeira barra, rodopia sobre ela, e de um só fôlego, volta a largá-la para se lançar para a segunda, que agarra com firmeza. De vez em quando, cai desamparada na piscina de esponjas, para logo se lançar de novo no ar. «É uma sensação tão boa, mãe! Parece que voo!» Diz-me ela, ao regressar dos treinos, suada e feliz. Foi numa destas noites que a Clarinha me ensinou o aforismo corrente entre as ginastas que praticam nas barras assimétricas:

A ginasta precisa da força para agarrar, e da coragem para largar.

Clarinha_barras 1

Como ainda não pude assistir a nenhum treino de ginástica artística, vou assistindo às suas brincadeiras nas barras que encontra nos parques e jardins, e vou pensando…

Pensando em tantas famílias que desejam ser Famílias de Caná, mas que ainda não tiveram coragem para largar algumas “barras”, nem força para agarrar outras.

Clarinha_barras 2

Quem se quer lançar no céu azul do amor de Deus, precisará sempre de treinar a fortaleza, que podemos também chamar de constância ou fidelidade,  para conseguir agarrar as barras firmes que se estendem à sua frente, e que nós, nas Famílias de Caná, concretizamos em “Seis Bilhas”; mas precisará também de ter coragem suficiente  para largar as barras que já não servem, e que impedem o voo. Que barras serão essas? Certamente que cada pessoa e cada família saberá das suas, mas podemos inseri-las em alguns grupos bem definidos de “barras”.

Talvez a maior seja mesmo o medo, o medo de tanta coisa, escondido sob a roupagem da cautela, da sensatez ou da prudência… É preciso coragem, sim, para vencer o medo!

Talvez depois venha aquilo que o Papa Francisco tem denunciado como a procura exagerada do  espaço e do tempo pessoais, que impede a entrega e a disponibilidade para servir.

Mas sem qualquer dúvida, a “barra” mais difícil de largar e que exige mais coragem da nossa parte é o apego ao nosso “eu”, à nossa vontade, ao nosso querer e ao nosso poder. De forma quase imperceptível, esta “barra” intromete-se em tudo o que fazemos e impede o voo livre nos braços de Deus. Recordam-se daqueles raros momentos em que tiveram coragem para a largar? Eu recordo! Quanta felicidade experimentamos então!

Os Jogos Olímpicos estão à porta, com as suas ginastas elegantes e destemidas, que nos fazem suster a respiração e soltar pequenos gritos de aflição. Como estão os Jogos Olímpicos da nossa vida?

Força para agarrar, coragem para largar… E eis que, sem saber bem como, descobrimos que estamos em pleno voo, entre uma barra e outra, cada vez mais alto, cada vez mais livres, cada vez mais felizes, o céu aqui tão perto…

 

2 Comments

  1. Como dizia a Catarina no outro post… já tinha saudades destes textos tão inspiradores!
    bjs

  2. Sem dúvida que quando temos a força para agarrar e a coragem de largar, o sentimento é de liberdade e de realização!

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