Em Caná da Galileia...


Domingo XXII do Tempo Comum, ano B

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

E SE EXPERIMENTÁSSEMOS FAZER DE OUTRA FORMA?

“Escuta, Israel”, diz Moisés no Deuteronómio. “Escuta, Israel”, rezam os judeus ainda hoje, três vezes ao dia. E rezamos nós e todas as Famílias de Caná, no início da oração familiar diária. “Escuta, António, escuta, Maria, escuta, pai, escuta, mãe, escuta, filho, escuta, irmão…” Escutamos? Façamos o exercício: quanto tempo por dia dedicamos à escuta da palavra do mundo, através da televisão, das conversas, das redes sociais? E quanto tempo por dia dedicamos à escuta da Palavra de Deus? Valerá a pena comparar?…

“Escuta, Israel, as palavras e os preceitos que vos dou a conhecer e ponde-os em prática”, continua Moisés. Na sua carta, S. Tiago insiste neste ponto: “Sede cumpridores da Palavra e não apenas ouvintes, pois seria enganar-vos a vós mesmos.” Escutamos para praticar. Ninguém pode praticar o que antes não escutou. Não podemos exigir aos filhos um comportamento cristão, se não lhes dermos a conhecer a Palavra cristã, e isto todos os dias da vida. No entanto, a maioria dos adolescentes cristãos com que nos cruzamos nas escolas e até na catequese não é capaz de citar nenhum trecho dos Evangelhos, nem sequer identificar as referências bíblicas utilizadas pelos escritores que estudam na escola…

Como se pode ser generoso, casto, honesto, fiel, aberto à vida, orante e agradecido se não formos diariamente desafiados a tal pela Palavra do Senhor? Porque a palavra do mundo desafia-nos insistentemente no sentido contrário! Alerta S. Tiago: “A religião pura e sem mancha consiste em visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e conservar-se limpo do contágio do mundo”. Ou seja, só é cristão quem pratica a Palavra de Deus e resiste às palavras do mundo.

E ao contrário do que o mundo diz, os mandamentos do Senhor são fonte de verdadeira felicidade: “Que povo tão sábio e tão prudente é esta grande nação!” De facto, os comportamentos que o mundo enaltece e o cristianismo condena só trazem desgraça, a julgar pelo número crescente de suicídios, divórcios e todo o tipo de vícios. Queremos ser felizes? Cumpramos os mandamentos de Deus!

Moisés é muito rigoroso quando se trata da Palavra de Deus, alertando o povo para dois perigos graves: “Não acrescentareis nada ao que vos ordeno, nem suprimireis coisa alguma.” Ambos os perigos coexistem nas sociedades de sempre. O perigo da supressão de alguns mandamentos é particularmente comum nos nossos dias. Quantos cristãos procuram justificar o seu desleixo moral ou religioso, suprimindo as leis do Senhor? Precisamos de exemplos? Eles moram na nossa casa, na nossa rua e até na nossa paróquia…

No tempo de Jesus, um dos graves perigos era o de acrescentar lei sobre lei à Palavra do Senhor, transformando-a num jugo pesado que ninguém conseguia carregar. No Evangelho, Jesus denuncia algumas dessas leis, como a obrigação de lavar as mãos antes das refeições. Note-se que só muitos séculos mais tarde se veio a saber da existência de microrganismos, pelo que não podemos ler estas leis através das noções de higiene que temos hoje. Ninguém, na altura, relacionava as mãos sujas com a contração de doenças. Aqui trata-se do contágio com pessoas ou objetos considerados impuros e, portanto, causadores de impureza espiritual, e é essa falsa impureza que Jesus vai denunciar, chamando-lhe de “tradição dos homens” por oposição ao “mandamento de Deus”. A verdadeira impureza e a verdadeira pureza, esclarece Jesus, são as que saem do coração.

Quantas leis supérfluas na nossa vida religiosa! Distinguir entre “tradição dos homens” e o “mandamento de Deus” é trabalho de todas as gerações. O Papa Francisco, em A Alegria do Evangelho (nº 33), alerta para o perigo que se exprime numa expressão muito próxima de todos: “Sempre se fez assim”. Quando cheguei à paróquia onde hoje vivo e interroguei os paroquianos sobre algumas coisas a que não estava acostumada, obtive como resposta: “Sempre se fez assim”. Geralmente, esta resposta é precedida por um “não faço ideia da razão, mas…” Pois a “tradição dos homens”, ao contrário do “mandamento de Deus”, tem “prazo de validade”, depois do qual deixa de fazer sentido.

Mas se quisermos ser fiéis ao Evangelho, precisamos de uma outra expressão: “E se experimentássemos fazer de outra forma?” Para que a Palavra de Deus chegue a todos, é preciso uma sempre “nova evangelização”, novidade que cada geração deve realizar e praticar. Estaremos abertos a ela, ou continuamos, como os judeus que Jesus criticou, agarrados a tradições vazias?

Domingo. Vimos à igreja para escutar e, depois, praticar. “Senhor, quem habitará na vossa casa?” Cantamos no salmo. Sabemos a resposta: “O que vive sem mancha e pratica a justiça… O que não faz mal ao seu próximo…” A resposta definitiva virá do próprio Deus quando, sobre o altar, nos oferecer a sua Vida em alimento. Contemplemos… “Qual é a grande nação que tem a divindade tão perto de si como está perto de nós o Senhor?” É esse o amor maior que queremos praticar… “Quem assim proceder jamais será abalado.” Ámen!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *