Em Caná da Galileia...


Os mínimos e os máximos no amor

Como comentou há pouco uma nossa leitora de longa data, alguns posts são especificamente para católicos que querem caminhar na sua fé, não sendo portanto do agrado dos outros leitores. Este é um deles, e desde já peço desculpa aos leitores que por aqui passam por outros motivos por voltar a insistir no tema. Mas de facto, os comentários e os e-mails recebidos fizeram-me crer que preciso de escrever um bocadinho mais sobre isto.

Falar de obrigação faz muita confusão nos nossos dias. Estamos acostumados a pensar em Deus como o amor infinito, a misericórdia mais bela. Estamos acostumados a ouvir dizer  que Deus perdoa tudo, que Deus a todos acolhe. E esta é mesmo a mais autêntica verdade sobre Deus. Nunca alcançaremos por completo a dimensão do seu amor misericordioso. Nem durante a eternidade inteira! O seu amor sempre nos ultrapassará.

Falamos muito do amor de Deus, e ainda bem. Mas… Será que este Deus que nos ama infinitamente não merece também da nossa parte um bocadinho de amor? Dizemos: “Deus perdoa-me se eu faltar à missa, claro que posso comungar na missa seguinte.” Será que, falando nós tanto do amor de Deus por nós, não nos incomoda nem um bocadinho a nossa falta de amor por Ele?

Imaginemos… Os nossos pais prepararam uma festa para assinalar uma data especial na família. Compraram bolos até não poderem mais, puseram a mesa, convidaram os amigos. Mas no dia da festa estava sol e a praia apetecia mais… Faltámos à festa e não nos lembrámos sequer de avisar, mesmo sabendo que a festa era muito importante para eles. Eles ficaram à espera a tarde inteira… Não há problema, pois eles amam-nos e perdoam-nos tudo, não é mesmo? Não nos incomoda nem um bocadinho a nossa falta de amor para com quem tanto nos ama?

Alguém me dizia num mail ter sido educado numa religião de amor, sem qualquer referência a pecado. Mas o que significa “pecado” senão falta de amor? O senhor bispo D. António Moiteiro, quando veio confessar os jovens para o crisma dois anos atrás, falou-lhes assim: “Ao fazer o vosso exame de consciência, pensai: faltei ao amor a Deus quando… Porque pecar é simplesmente não amar.” Pecar é não amar. Se queremos educar os nossos filhos numa religião de amor, temos de lhes falar em pecado. Não há como rodear esta questão.

Mas será assim tão grave faltar à missa uma vez?

O vosso marido ou a vossa mulher traiu-vos. Uma única vez. Não voltou a repetir. Foi só uma vez! Que importância tem?

O vosso patrão não vos pagou o salário este mês. Que importa? Foi só uma vez! Só um mês sem ordenado. Que diferença faz?

Uma vez, em certos assuntos, já é demais.

Nenhum marido que traia a sua esposa regressa a ela dizendo “Paciência, vou tentar não voltar a fazer”. Um pedido de perdão assim seria quase mais insultuoso que a própria traição! Ele sabe que ela merece um pedido de perdão à altura, talvez com joelho no chão, um jantar à luz das velas, um passeio caro. Se não for ela a exigir um pedido de perdão assim, é ele mesmo que o exige a si próprio, para poder, de alguma forma, provar o seu amor. Nunca poderemos sentir que realmente amamos se o nosso arrependimento for apenas um encolher de ombros.

A missa é o maior ato de amor de Deus por nós. Faltamos uma única vez, e achamos que basta encolher os ombros e dizer “Paciência! Para a próxima vou tentar não faltar”? A verdade, a incrível verdade, é que Deus se satisfaz com este nosso vago desejo de mudança, com esta nossa vaga manifestação de afeto, pois ele não espera senão um leve movimento da nossa alma, um mero suspiro do nosso coração para nos perdoar. Mas estaremos nós a amá-Lo com este desleixo no nosso pedido de perdão?  Deus merece mais do que um encolher de ombros quando faltamos à missa. Merece que nos humilhemos e que coremos de vergonha diante do seu representante na Terra, o sacerdote, no confessionário. O Papa Francisco tem referido muitas vezes a importância de nos sentirmos envergonhados. O sacramento da confissão não foi instituído por causa de Deus, mas por nossa causa. Quando o entenderemos?

Ir à missa ao domingo é uma obrigação. É, digamos, o mínimo dos mínimos de um bom cristão. Ir à missa ao domingo é o primeiro degrau, se assim quisermos, na vida de um católico. Não há nada de heróico ou de magnânimo em assistir à missa dominical (neste lado do mundo…), uma hora em 168 horas que a semana tem. É o “dez” no exame, que basta para passar.

Se o marido ou a esposa querem “passar” no seu casamento, não se traiam um ao outro. Mas se querem, realmente, ser felizes, então têm de se esforçar muito mais do que simplesmente não se traindo! Se queremos, na vida de fé, apenas “passar”, não faltemos nunca à missa ao domingo. Mas se queremos amar a Deus com paixão, retribuindo-lhe um milésimo do seu amor por nós, então não basta, de forma alguma, ir à missa ao domingo, muito menos para cumprir uma obrigação. É preciso muito, muito mais…

Vamos! Está na hora, aqui também no site, especialmente para quem nos acompanha há anos, de nos deixarmos de mínimos que já não devia ser preciso assegurar, para nos lançarmos na conquista dos máximos. O céu, só o céu é o limite. Sejamos, pelo Senhor, capazes das maiores acrobacias de amor. Ámen!

9 Comments

  1. Também tenho estado a pensar sobre esta questão… penso que a maior dificuldade que as pessoas sentirão se prenderá com a vivência espiritual da Eucaristia. Essa é uma descoberta muito pessoal, que requer maturidade e conversão… também ela Dom de Deus, que devemos pedir. E como tudo o que se prende com a nossa relação com Deus, é única e pessoal. Faltar à missa sem motivo de causa maior é pecado, sabemo-lo desde sempre. E é um daqueles fáceis de contornar e evitar! Mas… e aí começa o mas… e é neste domínio que se sente a falta da figura do director espiritual Que o Senhor nos ajude a consolidar a nossa relação com Ele! Gosto de pedir, Senhor eu creio, mas aumenta a minha Fé.

    • A minha intenção, nos posts que se seguem, é explorar o sentido da missa. Perceber o que acontece ali. São posts que demoram um bocadinho, por isso vão vindo com calma… Bj

      • Vou adorar ler esses posts 😉

        Às vezes sinto dificuldade em explicar o porquê das coisas… vou ficar à espera… como disse passo a passo vamos andando

        Beijinhos

  2. Natércia Fernandes

    Subescrevo! Não nos contentamos com um salário mínimo, mas contentamo-nos em dar o mínimo para Deus. Deus tenha misericórdia de nós e sejamos cada vez mais entusiastas a defender o valor infinito dos Sacramentos!

    Um abraço

    Até breve!!

  3. Pilar Pereira

    Gostei muito deste post e achei que os dois exemplos que deste, acerca de “ser só uma vez” foram muito, muito eloquentes! Temos de nos deixar de mínimos, realmente!

  4. Só posso dizer…. UAU……

  5. Rogério Ribeiro

    Como diz o catecismo da igreja católica na eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da igreja: o próprio Cristo.
    De fato na eucaristia Cristo torna-se presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade sob as espécies do Pão e do Vinho.
    Sendo assim como podemos viver sem eucaristia?
    Um cristão que não se alimente da eucaristia é um cristão subnutrido!

  6. Tenho pensado que Deus realmente vai juntando, como migalhas, todos os nossos gestos que signifiquem voltarmo-nos, um pouco, para Ele, e que tudo isso, um dia (espero), terá valor para Deus. Penso nisso principalmente quando reflito naquela frase de Jesus: «quem vos der um copo de água por seredes de Cristo, não perderá a sua recompensa».
    Mas, de facto, é muito fácil acreditar que somos amados por Deus e nada mais fazer. Amar Deus é que é difícil, implica mudar a nossa vida. E há muitos cristãos assim: acreditam, mas não amam.
    Quanto há eucaristia, muitos católicos pensam que a missa, como «é só rezar» e «é sempre igual» não justifica o esforço: podemos sempre rezar em casa.
    O que eles pensam é que o que se passa no altar é só simbólico, não é mesmo um milagre em que o Corpo e o Sangue surgem, de facto, à nossa frente. Mas se não acreditam nisso, então são protestantes, e não católicos. O que nos define como católicos, antes de mais, é acreditarmos que o milagre da consagração é real, e isso não acontece na nossa casa!
    PS: Teresa, se não comento mais vezes (quer para mostrar que concordo, quer para mostrar que discordo), é porque, geralmente, leio os posts a correr, numa pausa do trabalho, e não tenho tempo de refletir e comentar em tempo útil.

  7. Catarina Silva

    Tal como a Maria Mar, também gostava de conseguir comentar em tempo útil. De ter tempo para reflectir e comentar congruentemente, e, sobretudo, de conseguir mostrar a realidade daquelas pessoas que não foram educadas na fé. Ao ler os comentários apercebo-me que a maioria das pessoas que comenta tem uma formação cristã, o que é fantástico. Apercebo-me também que a Teresa, de uma forma que só ela consegue, tenta alertar os cristãos para o comodismo que manifestam na vivência da fé que professam. O esforço da Teresa (o tempo que despende, os neurónios que “gasta” a tentar escolher as palavras de forma a não ofender ninguém, etc) tem um valor inestimável, e a ela eu agradeço do fundo do coração, porque aprendi mais com ela nestes anos em que sigo o blog (e agora o site), do que em todos os outros anos anteriores.
    Aquilo para que quero chamar a atenção e aqueles que habitualmente trago no coração para levar ao Senhor, são pessoas que não tiveram uma formação cristã e para as quais a “exigência”
    da fé católica, parece demasiada. Porque, tal como a Maria Mar refere, se até para os católicos praticantes o milagre da consagração parece difícil de compreender, imaginem para todos aqueles a quem esse mesmo milagre nunca foi profundamente explicado. São pessoas boas e com um coração bom, no entanto…
    Enfim, isto da compreensão e vivência da fé católica, é um processo continuo, exigente e muitas vezes difícil. Mas, se cada um no seu caminho individual, for conseguindo unir-se cada vez mais ao Senhor e superar as dificuldades com Amor, então acredito (e hoje já consigo acreditar) que encontrou o caminho para a felicidade. Aquela que se procura em todo o lado e que esteve sempre ali ao nosso alcance.
    E é isso que vou tentando fazer todos os dias – eu e a minha própria miséria humana, cheia de defeitos e de duvidas, de uma forma rude e sem explicações bonitas – mostrar no serviço aos outros e no cuidado com os outros aquilo que Deus nos pede. E a maior parte das vezes é só mesmo isso que consigo: mostrar com gestos aquilo que eu acredito que Deus nos pede. Só isso. Infelizmente, e com muita pena minha.

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