Em Caná da Galileia...


Primeira Comunhão

O dia da Primeira Comunhão amanheceu radiante. E radiante também acordou a Lúcia, não parando de saltitar à minha volta até serem horas de ir para o santuário. Quanta luz no seu olhar!

“É hoje, mamã? Como é que é receber Jesus no coração?”

“Já vais ver. Tem paciência! Falta pouco!”

“Já esperei tanto!”

E depois de esperar mais um bocadinho, lá fomos para a igreja. A Lúcia correu para junto dos amigos e com eles a seu lado, preparou-se para o grande momento.

“Jesus Cristo, és minha vida! Aleluia! Aleluia!” A Clarinha cantava com voz sonora, conduzindo a assembleia festiva, enquanto os meninos entravam e se colocavam ao lado dos pais, na coxia central.

Como desde a operação à tiróide eu não sou capaz de cantar, tenho mais tempo para contemplar. Na manhã do dia 7 deliciei-me a contemplar a minha família: dois dos meus filhos acolitavam ao lado do senhor padre; outro, o mais velho, tocava guitarra e cantava os baixos; a mais velha conduzia o coro e a assembleia, tão serena e confiante do alto dos seus dezasseis anos; a mais pequenita serigaitava por ali, e a menina do meio preparava-se para a sua Primeira Comunhão. A meu lado, o Niall transbordava de felicidade. Quanta harmonia, ter a família inteira na mesma missa, partilhando o mesmo Pão, louvando o mesmo Senhor!

Há vários meses que a Lúcia, com a ajuda da Clarinha, se vinha preparando para cantar o salmo. Quando o momento chegou, a Lúcia não cantou apenas: a Lúcia “dançou” o salmo para o seu Jesus, balançando o corpo ao ritmo da sua voz, sobre o banquito branco por detrás do ambão. Que cena tão ternurenta!

Por fim, a Lúcia ajoelhou-se nos degraus do altar, com as mãos postas em oração, e Jesus desceu ao seu coração. “Nós, Jesus!” Ao microfone, a Clarinha cantava e, com ela, o nosso pequeno coro e toda a assembleia: “Nada me separará do teu amor, ó Senhor!” (Já sabem cantar este cântico?)

A festa continuou até ao final da celebração, com várias surpresas que os catequistas tinham preparado e com toda a assembleia a vibrar. A festa continuou também em casa, com a avó, os tios e primos de Coimbra, os padrinhos, o senhor padre, os catequistas. Que tarde fantástica!

Durante todo o resto do dia, a Lúcia manteve-se serena. De vez em quando, afagava a imagem da pastorinha Lúcia, que nós lhe oferecemos, ou lia uma história da sua nova Bíblia ilustrada, presente da avó. À noite, como costume, subiu para o beliche da irmã e abriu a janelinha, para contemplar as estrelas. Chamou-me.

“Mamã, as estrelas estão tão brilhantes! O David disse-me que no dia da sua Primeira Comunhão viu uma cruz de nuvens no céu. Eu acho que estou a ver uma estrela mais brilhante do que as outras!”

“Que bonito! Estavas a agradecer o dia a Jesus, aqui sozinha?”

“Sim. Como é que sabes?”

“Imaginei… Eu também gosto de rezar a contemplar as estrelas!”

“Parece que sinto uma coisa especial aqui dentro do peito, não sei como é… Sinto-me diferente! Cheia de alegria!”

“É Jesus em ti…”

“Eu sei. Tenho pena que ainda faltem oito dias para receber Jesus outra vez!”

“Se quiseres, podemos ir amanhã à missa. Assim só falta um dia!”

“Podemos? Ah, que bom! Vamos! Quero comungar outra vez!”

E assim fizemos, de novo em família. A Lúcia estava radiante.

“Agora já ganhaste aos teus amigos!” Dizia-lhe o António. “Já levas uma comunhão de avanço!”

Talvez leve mais, pensei eu… Quantos meninos fazem a última comunhão no dia da primeira…

“Mamã,” chamou de novo a Lúcia, contemplando as estrelas depois da sua segunda comunhão. “Quanto tempo é que Jesus fica no coração depois de comungarmos?”

“Bem, Jesus fica o tempo que tu quiseres…”

“Como assim?”

“Jesus só sai do teu coração se tu O empurrares, com o teu pecado.”

“Ah! Se eu não pecar, Ele não sai? Por isso é que eu me senti o dia todo tão feliz! Eu hoje não fiz pecados, e Jesus ficou o dia todo comigo. E agora comunguei outra vez, e Ele está ainda mais comigo!” A Lúcia ria, feliz: “Agora estou sempre com Jesus! Agora já não tenho medo do escuro nem de nada, porque Jesus está sempre comigo!”

Ah, as graças da Primeira Comunhão! Como Deus é bom! Nós, Jesus… Nós, Jesus…

Deixai vir a Mim as criancinhas, não as impeçais! Porque é delas o Reino dos Céus. (Mt 19, 14)

 

7 Comments

  1. Helena Atalaia

    A maravilhosa verdade das crianças. Sem constrangimentos, com pureza de coração! Parabéns à Lúcia e a todos vós!
    Bjs

  2. “Quantos meninos fazem a última comunhão no dia da primeira…”.
    Estava à espera deste post desde que escreveste que a Lúcia ia fazer a primeira comunhao.
    A minha afilhada Florence também fez a primeira comunhao no domingo (a família vive aqui na Alemanha, perto de Estugarda) e eu, ao ver as outras criancas (sobretudo as meninas, vestidas como princesas – uma até coroa tinha! – ou noivas) e as respectivas famílias, nao pude deixar de pensar o mesmo. Uma igreja a abarrotar de gente, onde muitos “convidados” pareciam ter confundido a primeira comunhao com uma festa de discoteca, tal as roupas que levavam (mini-saias, decotes e transparências). Eu sou tolerante mas nao gosto de ver “poucas vergonhas”, como diria a minha avó. Acho que devemos vestir-nos de acordo com as circunstâncias. Eu também nao vestiria um mini vestido transparente para ir a uma entrevista de emprego a um escritório de advogados…
    Mas, pior do que isso, foi ver que nao sabiam nada do cerimonial da missa.
    Gostei tanto de ver a Lúcia com uma roupa simples, qual acólita. Gostava que aqui também fosse assim, que todos fossem vestidos igual e simples.
    E também gostei de saber que a Lúcia recebeu prendas singelas e “religiosas”. A maior parte das criancas alemas que fazem a primeira comunhao, só o fazem pela festa e, sobretudo, pelas prendas. É que aqui as criancas recebem (ou pelo menos estao à espera de recebem) dinheiro e muito! 100 € é o mínimo. Muitos esperam receber um telemóvel (estamos a falar de criancas de 8-9 anos, da terceira classe!), um computador, uma playstation…
    Felizmente a minha afilhada pertence a uma família católica praticante e levava uma roupa festiva mas simples e as prendas que recebeu foram (quase) todas relacionadas com a comunhao. Também recebeu algum dinheiro, mas sem exageros.
    Vim de lá triste e revoltada. Por exemplo: uma das criancas que fez a primeira comunhao só foi 2 vezes à catequese. A “desculpa” do padre é que nao se pode proibir uma pessoa de receber um Sacramento? Corrige-me se estou enganada, mas também ninguém é obrigado a receber o sacramento! Se nao fores às aulas de código e de conducao também nao te autorizam a fazer o exame da carta de conducao.
    Enfim, desculpem o desabafo.

    • Querida Teresa, amanhã tenho um post um bocadinho mais triste sobre o mesmo dia, e continuamos a reflexão. Penso que todos os catequistas sentem, em algum momento da sua vida, o desalento de não estarem a preparar convenientemente as crianças, porque em casa a mensagem é contrária à da catequese; penso que muitos párocos experimentam o desalento de saberem perfeitamente que algumas crianças não estão nem estarão preparadas, mas que não conseguem discernir qual a atitude mais caritativa a tomar; e também penso que muitos catequistas não estão preparados para o serem, porque a boa vontade não chega. Como é que Jesus consegue trabalhar numa Igreja com estas fragilidades, a começar pelo meu pecado, permanece para mim um dos maiores mistérios… Bj!

  3. Que alegria genuína e transbordante a da Lúcia!
    Graças a Deus pelo seu testemunho!

  4. António Assunção

    Li a notícia da Teresa sobre a Comunhão da Lúcia (1ª, 2ª…) e o comentário/notícia da Teresa A sobre «muitos “convidados” pareciam ter confundido a primeira comunhao com uma festa de discoteca,»
    Infelizmente não é só lá na Alemanha, onde eram muitos… O desafio não está na quantidade, mas na qualidade!…
    Unidos à alegria da Lúcia na terra, associada à alegria da Lúcia no céu que se alegra(m) com a canonização da Jacinta e do Francisco , santos eucarísticos, pois eram grandes amigos de “Jesus escondido”

  5. Olívia Batista

    Que belo dia deve ter sido! A atitude da Lúcia mostra isso mesmo, percebendo que O que é mais importante está agora mais profundamente com ela!
    Preparar crianças para a sua primeira comunhão é uma tarefa verdadeiramente complicada, mas que nos enche a alma, todos os catequistas sabem bem quais as crianças que estão preparadas para dar este passo, mas nem todos os pais o reconhecem (falo apenas da minha experiência em ambos os lados), no fundo talvez apenas preciso semear aqui e ali, na esperança de que Deus faça o Seu trabalho!

  6. É com emoção que li o post, que bom é a Lúcia ter recebido Jesus com esse conhecimento e amor …
    Como seria diferente a vida de tantos adolescentes e jovens se fizessem e vivessem uma experiência assim.

    Parabéns à Lúcia e a todos que lhe mostraram e ensinaram como o Senhor é bom.

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