Testemunhos


A Eucaristia e o Getsémani

Testemunho do João Miranda Santos

Eis-nos chegados à Quinta-feira Santa de uma Páscoa especial, que vai ser vivida de uma forma diferente do que alguma vez o fizemos.

Desde o início deste período em que estamos a viver “fechados” em casa que há uma coisa da qual sentimos uma falta incontornável e insubstituível: o Pão da Vida. Temos acesso a praticamente tudo aquilo que achamos essencial: ao nível carnal podemos obter tudo aquilo de que precisamos para viver, e até o que não precisamos, apesar dos riscos que corremos ao ir a superfícies comerciais; ao nível espiritual não têm faltado todo o tipo de subsídios vindos de toda a parte, podia até falar-se numa overdose de propostas espirituais, que é preciso consumir com moderação sob o risco de ficarmos espiritualmente “empanturrados”.

No entanto, relativamente à Comunhão através do Sacramento da Eucaristia ficámos sem qualquer hipótese de matar a nossa “fome”. As missas comunitárias tiveram de ser suspensas pelo risco de contágio que implicavam. Mas talvez os sacerdotes pudessem ter encontrado soluções para permitir aos fiéis receberem a Eucaristia sem riscos de contágio, ou até com riscos mínimos controlados, como os que estamos sujeitos para ir à compras ou para ir trabalhar. Desta forma, com boa intenção mas com uma certa negligência, remeteram as “ovelhas” dos seus “rebanhos” que lhes estão confiados a um período de fome.

Cá em casa aceitámos, resignados, esta situação e com ela temos convivido tentando transformar a fome no crescente desejo de a matar e na adoração crescente deste Bem de que estamos privados. Desde o início que temos muito presentes os cristãos que por várias razões já experimentam regularmente a impossibilidade de comungar a Eucaristia, em contraste com o luxo de que nós dispomos ao termos Eucaristia semanal, ou até diária, se assim o quisermos sem grande esforço.

Estamos em Quinta-Feira Santa. A Igreja celebra hoje a instituição da Eucaristia. O nosso Deus, que se fez carne no seu Filho, não nos quis deixar apenas com o Espírito. O Filho, antes de regressar para junto do Pai, quis deixar-nos o seu Corpo. Não apenas o seu Corpo místico, que somos nós a Igreja, e do qual podemos e devemos comungar dentro de nossas casas, ao reunirmos a nossa família em oração. Mas quis deixar-nos o seu Corpo materializado no Pão e no Vinho. Este mistério, que a Igreja chamou de transubstanciação para tentar definir o que é tão difícil de perceber, diz-nos que aquilo que parece que é pão e vinho, não é. É o Corpo e o Sangue de Jesus, não em espírito mas em substância. Só com a nossa fé podemos ver que é Jesus real que está ali presente.

A Igreja deixa assim bastante claro que o nosso Deus é um Deus que dá muita importância à carne, à matéria. Por isso o consolo que nos tem sido apresentado da comunhão espiritual, apesar de ser melhor que nada, só pode deixar-nos ainda muito desconsolados.

Um destes dias, ao irmos rezar a via-sacra que existe ao lado da nossa igreja paroquial (sem correr riscos, claro, uma vez que a área estava completamente deserta) e ao passar à porta da igreja fechada, demo-nos conta de como este nosso Deus, que dá tanta importância à presença real, se encontrava ali fechado há vários dias. Ele sim, em verdadeiro isolamento, mesmo sem correr qualquer risco de ser contagiado nem de contagiar ninguém. Imediatamente nos lembrámos de S. Francisco Marto e da preocupação que ele tinha em ficar horas na igreja a fazer companhia ao “Jesus escondido”. Por isso, apesar de Ele estar agora ainda mais escondido atrás de mais uma porta grossa, resolvemos adorá-lo um pouco e fazer-lhe um bocadinho de companhia. Afinal de contas nós sentimos muita falta de comungar o Seu Corpo, mas não sentirá Ele também falta de ser comungado por nós? Se Ele assim quis dar-se-nos como alimento também sofrerá certamente com o facto de nós não nos podermos alimentar d’Ele. Ele melhor do que nós sabe que quanto mais longe estamos d’Ele mais nos perdemos, porque Ele é o Caminho! E a nossa perdição só O pode deixar em sofrimento aumentado. Entregou-se por nós com tanta dor e nós pouco nos esforçamos para estarmos próximos d’Ele?

Estamos em Quinta-Feira Santa. O dia de Jesus e dos discípulos não terminou com a ceia. A noite foi longa e dura. Jesus não quer estar só, quer os seus discípulos consigo na sua agonia. Para a derradeira oração da Sua entrega leva três discípulos mesmo para o Seu lado. Jesus pede a proximidade física, Jesus quer a companhia. «Ficai aqui e vigiai comigo» suplica-nos.

Todos os anos neste dia somos privilegiados com a comunhão deste Corpo que nos acompanha mil vezes mais a nós do que nós a Ele. Mas este ano é diferente. Este ano Ele está sozinho e isolado dentro da igreja e nós em casa. Este ano Ele gostava ao menos de poder ter um bocadinho da nossa companhia. Será que não conseguimos convencer o nosso pároco e organizar-mos uma adoração Eucarística à prova de covid-19? Não é um dia qualquer! Jesus foi muitas vezes para o cimo do monte rezar sozinho, mas neste dia Ele quer mesmo a companhia dos seus discípulos! Mesmo que não consigamos isto, será que não conseguimos ir até à porta da igreja para estarmos o mais perto possível? Nem que seja a meio da noite! Se nem isto for possível, que ao menos o adoremos em nossa casa. Mas, por favor, não nos viremos para uma imagem no ecrã do computador ou da TV, viremo-nos para a igreja mais perto de nossa casa, é lá que Ele está realmente presente, e Ele deixou bem claro que não é só a união espiritual que interessa, e que gosta da proximidade. Senão ouviremos certamente dizer-nos:

O espírito está pronto mas a carne é fraca. (Mt. 26, 41)

Imagem privilegiada que temos da nossa janela com o “Jesus escondido” na igreja e com o Jesus de braços abertos, faça chuva ou sol, que reina sobre qualquer vírus!

7 Comments

  1. Obrigada João por esta reflexão tão profunda e verdadeira. Como concordo com cada palavra sua. Realmente hoje a oferta é muita e variada que, se não tevermos cuidado, pode-nos dispersar do que é realmente importante. Todos os cuidados se criaram, para podermos ir ás compras, trabalhar… E nada se pensou para podermos comungar o corpo de Jesus…

  2. Obrigada pelo desafio, João! Viemos agora da nossa igreja, o Santuário, que tem as portas sempre abertas, e onde nunca houve, nem agora há o perigo de nos cruzarmos com uma multidão fora dos horários das Eucaristias. Que maravilha, podermos fazer companhia a Jesus Escondido neste dia tão especial! Como seria bom se todas as famílias saudáveis aproveitassem os seus duzentos metros e dez minutos de liberdade para visitar o Senhor!

  3. Isabel Marantes

    Olá João! Também temos feito isso sobretudo aos Domingos, nem que fiquemos no carro no parque de estacionamento.
    Olhamos para o edifício da igreja como um grande sacrário, onde está um outro sacrário com Jesus escondido…
    Um abraço para todos,
    Isabel

    • João Miranda Santos

      É isso mesmo Isabel, nem que seja no carro. Hoje aqui consoante a intensidade da chuva poderá ter de ser mesmo assim. Obrigado pela partilha.

  4. Obrigada João pelo vosso testemunho! Hoje “não é um dia qualquer”, dizes! E não devia ser… Mas para muitas famílias é… infelizmente. Até tele-aulas da universidade alguns professores marcaram para hoje… Enfim! O cenário de hoje em nada difere do dos outros dias: ecrãs de computador, cada um com os seus compromissos profissionais…assim segue parte do mundo.
    Famílias como a vossa rezem por aquelas que não conseguem voar mais alto e distinguir os sinais dos tempos. “Ele melhor do que nós sabe que quanto mais longe estamos d’Ele mais nos perdemos, porque Ele é o Caminho!”
    De qualquer forma: hoje é quinta feira santa!!!! 🙂
    Um grande abraço a todos vós!

  5. Rogério Tavares Ribeiro

    Desta forma, com boa intenção mas com uma certa negligência, remeteram as “ovelhas” dos seus “rebanhos” que lhes estão confiados a um período de fome.

    Sem dúvida João!
    Aqui na minha paróquia temos a igreja e o cemitério trancados a sete chaves!
    Recordo o que os cristãos perseguidos de todas as épocas que para poderem comungar usavam mil e uma astúcias para receber Jesus, muitas vezes até com o risco de perderem a própria vida!
    E nós hoje? Estamos apáticos, tíbios, mornos…

    • João Miranda Santos

      É verdade, aqui até o cemitério está trancado também! Será para não se correr o risco de contagiar os mortos? Ou será pela multidão de pessoas que, como se sabe, costuma ir diariamente ao cemitério? Enfim…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *