Em Caná da Galileia...


Quanto custa uma nota escolar

“Preciso mesmo de tirar positiva, professora”, diz-me uma menina simpática de longos cabelos encaracolados. “Senão, a minha mãe nunca mais me devolve o telemóvel!”

“O meu amigo recebe dez euros por cada positiva, e cinquenta por um Muito Bom”, explica-me um dos meus filhos. Rimo-nos juntos: ainda bem que esse amigo nunca tirou Muito Bons, ou os pais ficariam arruinados!

Quanto custa uma nota escolar? Apercebo-me, com tristeza, de que são cada vez mais baratas: algumas, custam um telemóvel de última geração; outras, cinquenta euros; outras custam uma Playstation, um jogo de computador, uma televisão no quarto; outras ainda, uma saída à noite, um fim-de-semana em casa de um amigo… Como é barato o esforço, o empenho, o trabalho, o sacrifício de uma criança! Não admira que elas não se esforcem. E ainda admira menos que, esforçando-se e alcançando a nota máxima, não sejam felizes.

Deus está contente com os vossos sacrifícios!

Assim falou Nossa Senhora em Fátima aos Pastorinhos. Assim falo eu também aos meus filhos, quando me dou conta do esforço feito para alcançar determinado resultado. Estudar e ter boas notas só faz sentido se fizer parte do esforço de santidade de uma criança, da educação para a virtude. Estudar e ter boas notas implica vencer a preguiça, que é um vício terrível, e vencer a tentação de só fazer o que apetece, que é a raiz de muitos pecados. O sacrifício que este esforço de santidade implica pode ser oferecido pela conversão dos pecadores, pela paz no mundo, pelas almas do purgatório, ou simplesmente colocado no regaço da Mãe, pelas intenções do seu Imaculado Coração. E Deus fica contente.

Estudar e ter boas notas implica ainda crescer na contemplação do mundo criado por Deus, das maravilhas que só o Amor soube inventar, e que a nós é proposto descobrir. Precisamos de boas doses de alegria e de curiosidade para aprender tudo o que o Senhor quer que aprendamos e, como o salmista, poder exclamar:

Como são grandes, Senhor, as vossas obras! Tudo fizestes com Sabedoria! (Salmo 103, 24)

É preciso ter sempre a nota máxima? Para uns, mais do que para outros. Mas, mesmo para os que a podem alcançar, há que considerar o preço a pagar por ela. Que a nota máxima não signifique falta de tempo para rezar, falta de tempo para brincar, falta de tempo para ajudar em casa, falta de tempo para ir à missa, como infelizmente vejo que acontece ao meu redor… “É preciso que o meu filho dê o seu melhor”, ouço dizer. Sim, mas q.b.! Os períodos do “tudo por tudo” devem ser curtos e bem delimitados. Porque a formação de uma pessoa só tem na escola uma pequena parte. Os resultados escolares não são um valor absoluto. A contemplação do Universo acontece de muitas outras formas e em muitos outros lugares, incluindo naquele lugar chamado “tempo livre”.

“Escola” em “Náturia”, o descampado…

Durante o ano, à porta da escola, enquanto espero pelos meus filhos, escuto de passagem verdadeiros interrogatórios: “Que nota tiveste a Geografia? Só? E a Matemática? Que miséria!” Como arrepia! E como é bom, pelo contrário, ver o reencontro de pais e filhos com um abraço e muitas gargalhadas, conversando sobre quem brincou a quê e como o lanche soube bem.

Valor absoluto, só o amor. Não é isso que nos diz o Apóstolo?

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que ressoa ou um címbalo que retine… (1Cor 13)

Nunca premiei nem nunca castiguei um filho pelos seus resultados escolares. Acho que eles iriam ficar muito surpreendidos, provavelmente bastante ofendidos, se isso acontecesse.

Vamos dar o preço justo então ao esforço e ao empenho dos nossos filhos? Vamos ensinar-lhes, pelo exemplo, pela palavra, pela pouca importância dada às recompensas materiais, que a única coisa que realmente importa nesta vida é ser santo? Ou como nos disse a Mãe em Fátima, fazer Deus contente? E que a escola é uma pequena parte desta grande aventura divina?

O que é todo o ouro do mundo, o que são todos os cincos ou vintes das escolas, comparados com um sorriso do nosso Deus?…

5 Comments

  1. E porque hoje é dia de exame nacional, que Nossa Senhora permita a todos receber a recompensa do esforço feito, e que os objectivos sejam alcançados. Que todos coloquem o seu conhecimento e talento ao serviço de quem tudo fez. Parabéns pelo post neste dia. Bjs Carla

  2. Catarina Silva

    Que Maravilha de texto Teresa! Como gostava que toda a gente lesse e meditasse verdadeiramente neste texto. Muito Obrigada por estas palavras…sinto tanta tristeza porque, para alguns, estas palavras que escreveu não fazem qualquer sentido…. Sinto tristeza sobretudo pelas crianças, e por aquilo a que são sujeitas…

  3. Há tantos pais que pensam assim… Como se Deus, um dia, fosse perguntar a cada um: Que nota tiveste a História? Que nota tiveste a Ciências?
    No fim de contas, nada disto interessa, pois as perguntas que Deus nos fará serão: Quantas vezes paraste o que estavas a fazer para ajudar o teu irmão? Quantas vezes agradeceste a inteligência que recebeste? Quantas vezes aplicaste o que aprendeste no serviço aos outros?

    • @Maria: O seu comentário tocou-me profundamente. Eu sou uma dessas mães que cai na tentação de exigir muito. Não é que dê recompensas, mas sou muito de “castigar” a minha filhota (que está na primeira classe e é uma excelente aluna!) quando ela não se aplica o suficiente nos testes ou nos trabalhos de casa.
      E o castigo não é tirar-lhe “coisas” materiais (não tem telemóvel nem playsation nem nada disso), é muito pior do que isso: é zangar-me, ralhar, não brincar com ela, mostrar que estou decepcionada…

      As palavras da Teresa foram umas bofetadas boas, mas as palavras da Maria foram direitinhas ao meu coração.

      Eu gostaria de acrescentar que, se morrer hoje, Deus não me vai perguntar “Que nota teve a tua filha a Matemática? Ou a Alemão?”. Ele irá perguntar: “Quantas vezes agradeceste a dádiva da maternidade? Quantas vezes disseste à tua filha que estás orgulhosa dela por ter partilhado os morangos do lanche com os colegas da turma?”

      • Olívia Batista

        Teresa A. se me permite dizer, podemos sempre mudar. Eu mudei, completamente. Exigi, premiei, castiguei, obriguei… depois percebi que estava errada e comecei a incentivar, a ajudar a ganhar autonomia, mais uns elogios, manti-me firme e passei apenas a exigir dedicação e esforço contrabalançando com diversão e brincadeira. Agora sei que, se as minhas filhas se esforçaram, se fizeram tudo o que podiam, quem sou eu para as “castigar mais”?
        Força!

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