Em Caná da Galileia...


Uma manta, uma chávena de chá e o princípio da gratidão

Quando chegámos à Irlanda, uma irmã do Niall deixou-nos um saco com toalhas de praia e alguns brinquedos para brincar na areia. Tínhamos combinado assim para não virmos de Portugal carregados com estas coisas. Abri o saco e, com surpresa, vi que no meio das toalhas havia… uma manta.

No dia seguinte, na praia, contemplámos o areal: não se via um único guarda-sol, e apenas duas ou três pessoas estavam vestidas com fatos-de-banho. As crianças envergavam fatos de mergulho, os adultos estavam vestidos e, quando queriam nadar, mudavam-se rapidamente com a ajuda de uma toalha e depois do banho faziam o mesmo. Em vez de arcas térmicas, como as que se veem nas praias portuguesas, para manter os alimentos frescos, as famílias levavam termos com chá quente, para beber depois do mergulho no mar, sentados… nas suas mantas!

Fartámo-nos de rir diante desta cena. Depois, felizes com as nossas toalhas e a nossa manta quentinha, fizemos como todos os irlandeses e passámos uma tarde magnífica à beira-mar.

Noutra manhã, no parque infantil, onde fui com a Sara e o António, reparei que todas as mamãs traziam ao ombro uma toalha turca. Não demorei a perceber porquê: antes das crianças se sentarem no baloiço ou no escorrega, era preciso enxugar as superfícies. Que bela ideia! Passámos a adotá-la de imediato também.

Num outro dia, fomos fazer um passeio pela falésia. Estava realmente frio, fazia vento e chuviscava. Vestimos os casacos de inverno que trouxemos connosco e fomos dar um belo passeio, contemplando o mar suave lá em baixo.

Foi então que avistámos na praia dois carros a parar, e deles saltaram várias crianças e adolescentes, seguidos dos pais e das mães, todos numa enorme algazarra. Com a rapidez de um relâmpago, montaram duas tendas, vestiram os fatos de mergulho e correram para a água, nadando alegremente.

Entreolhámo-nos: se eles podiam, porque não nós? A rir, descemos a falésia, os meninos e o Niall vestiram os fatos-de-banho – à falta de fatos de mergulho… – e mergulharam também. Que bela experiência!

Fiquei a pensar em algumas cenas a que assisti este verão nas praias portuguesas, de pessoas a queixar-se dos vinte graus que faziam na praia, da falta de sol, do nevoeiro, do vento norte, e a afirmar convictamente que não era possível fazer praia assim. Ou nas conversas que, no fim do verão, escuto no meu trabalho, de pessoas a queixar-se do verão terrível que tiveram, porque a água esteve demasiado fria no Algarve…

Também já pertenci a esse grupo (exceto no que se refere ao Algarve, onde só estive uma vez em criança), mas depois casei com um irlandês, e aprendi a ver o mundo de forma diferente. Aqui na Irlanda, a atitude é simples, como me explicou um cunhado: “Nós por cá estamos sempre a contar com mau tempo. Tudo o resto é bónus!”

Nem tudo me agrada na Irlanda, naturalmente, mas esta atitude básica fez eco dentro de mim. Estou convencida de que o princípio da felicidade é o princípio da gratidão: um coração agradecido é um coração feliz. E a gratidão nasce da crença de que tudo é bónus, tudo é dom, nada nos é devido. “Que fiz eu para merecer esta desgraça na minha vida?” Ouço dizer com frequência. Somos muito mais felizes quando perguntamos antes, diante dos bens que recebemos: “Que fiz eu para merecer tamanho dom na minha vida?” E podemos perguntarmo-nos isto a toda a hora… Se nada fizemos para merecer os males, bem menos fizemos para merecer os bens. Porque caiu aquela avioneta sobre aquela criança, e não sobre a minha? Porque caiu aquela árvore sobre aquela família, e não sobre a minha? Porque destruiu o fogo aquela casa, e não a minha? Porque estava aquela família a passear no centro de Barcelona quando o terrorista por lá passou, e não a minha? Podia ter sido eu, podiam ter sido os meus. Não somos mais especiais, para Deus, que qualquer um dos que foi apanhado pela desgraça este verão. Quantos dons que não agradecemos! Tenho vindo a repetir esta ideia vezes sem conta neste site, e vou continuar a repetir, porque ela é absolutamente essencial para a nossa santidade.

“A Irlanda é o sítio mais bonito do mundo”, comentei eu com o Niall, diante de uma paisagem de cortar a respiração.

Ele riu-se: “Disseste o mesmo sobre o Gerês, quando lá fomos de férias o ano passado; e dizes sempre o mesmo a cada manhã de verão, sobre a praia da Costa Nova, quando lá chegas antes das gaivotas levantarem voo… Espera: acho que dizes o mesmo todos os dias sobre o local onde vivemos, quando passeamos os cães à tardinha em volta da nossa casa. Teresa, não é a Irlanda que é o sítio mais bonito do mundo: és tu que és muito fácil de contentar!”

Não podemos estar na praia com guarda-sol? Podemos estar sentados sobre uma mantinha a beber chávenas de chá. E que bem que sabe!

4 Comments

  1. Gostei muito do que escreveu!…

  2. Sim, Teresa, continue a repetir isto vezes sem conta, porque eu e certamente outros leitores necessitamos mesmo de interiorizar isto!
    Obrigada também por partilhar as fotos do “sítio mais bonito do mundo” – tudo tão verdinho! 🙂
    Um abraço

  3. São palavras muito bonitas e que nos fazem pensar na nossa vida!!

  4. Realmente a vossa paisagem aí na Irlanda é mesmo de cortar a respiração!!! Faz lembrar os Açores!!! É lindíssima!!! Parece transmitir muita tranquilidade!!! E queria dizer mais alguma coisa, mas perante estas imagens, nada mais se diz porque uma imagem vale por mil palavras!!!… Sei disto porque já visitei os Açores e adorei!!!…

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