Em Caná da Galileia...


Um copo de água

No início deste ano letivo, e no meio do caos que são sempre os tempos de adaptação a novas rotinas, horários e trabalhos, adotei um ritual muito especial, que vou partilhar convosco, nem que seja para vos fazer sorrir: quando me sinto mais irritada, nervosa ou inquieta, vou à cozinha, e bebo devagar um copo de água de um certo garrafão, que as crianças já sabem ser para mim…

A ideia foi do Niall. Um dia, ao fazer as compras da semana, reparou nos garrafões de água do Gerês, e recordou-se de ter ouvido dizer, na pequena aldeia onde passámos férias, que a famosa Água do Fastio (desculpem a publicidade) é em tudo idêntica à água que corria, fresca e abundante, da fonte em frente da “nossa” casinha. O Niall tem um prazer particular em fazer-me pequenas surpresas, e nesse dia chegou a casa muito feliz: “Teresa, já que não podes ir à montanha beber da tua querida fonte, eis que trago a fonte até ti!”

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Este ritual tem um efeito imediato: de olhos fechados, enquanto bebo a água fresca com sabor a férias, revejo-me lá em cima, na montanha, e quase consigo escutar o tilintar dos chocalhos dos rebanhos, o vento por entre as rochas, o cantar dos grilos, a melodia da fonte… Bastam alguns segundos – tantos quantos leva a beber um copo de água fresca – para eu experimentar de novo a paz e a alegria das nossas últimas férias em família!

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Outro dia, durante a Eucaristia, lembrei-me deste meu ritual. Na verdade, na última ceia com os seus amigos, Jesus pediu-lhes que partissem o pão e bebessem o vinho em sua memória. Que gesto tão bonito! Mas há uma diferença fundamental entre o ritual de Jesus e o meu: o copo de água fresca que eu bebo quando preciso de um pouco de paz não me transporta até à montanha senão na minha imaginação; o pão e o vinho que os discípulos do Senhor partilham na Eucaristia transportam-nos realmente até àquele momento único na História em que Jesus deu a vida por cada um de nós.

Não se trata de imaginar coisas, de experimentar sensações, de rever emoções. O mais natural é não sentir, não ver, não experimentar absolutamente nada… Trata-se antes de uma viagem mística, misteriosa, mas mais real que o universo físico e psíquico onde me movo, e que me leva até à hora de Jesus, essa hora que Ele pré-anunciou nas Bodas de Caná: a hora da cruz, a hora do Coração aberto de onde jorra, abundante, a Fonte da Misericórdia.

Anda o mundo inteiro ansioso por um pouco de paz – ando eu tantas vezes ansiosa por um pouco de paz – e ela aqui tão perto! Bem dizia Jesus:

Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo! (Mc 1, 15)

 

Está próximo, sim! Tão próximo quanto a minha igreja paroquial, onde o Senhor todos os dias – na missa e no sacrário – nos oferece o Céu num pedaço de pão…

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2 Comments

  1. Bem, que belíssima ideia teve o Niall!
    Obrigada pelas palavras que aqui partilhas, mais do que fazer rir fazem-nos ter esperança e ajudam-nos ao longo do caminho!

  2. As pequenas coisas são belas e podem deixar-nos muito felizes.
    Obrigada pela partilha

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