Em Caná da Galileia...


Domingo de Páscoa! Aleluia!

Aqui fica a reflexão semanal que escrevi, publicada, como sempre, no nosso jornal diocesano Correio de Vouga, com os nossos votos de uma Santa e muito frutuosa Páscoa 2o2o.

ELE ANDA POR AÍ! ALELUIA!

Aleluia! Hoje é Domingo de Páscoa, o primeiro dia da semana, o primeiro dia da Nova Criação. Cristo Ressuscitou! Aleluia!

“Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro.” Eis o primeiro movimento da ressurreição, que é também o primeiro movimento bíblico: levantar-se e sair. Ainda que seja noite. Ainda que esteja escuro. Ainda que não saibamos para onde exatamente. Ainda que caminhemos entre túmulos.

Madalena foi ao sepulcro “e viu a pedra retirada do sepulcro”. Quem ela procurava não estava ali! Tomada de espanto, Madalena chamou os discípulos de Jesus. Pedro e João vieram a correr, cheios de pressa para confirmar a palavra da mulher feita Palavra de Deus. “Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro. Viu e acreditou.” Mas que viram os três, precisamente? “Diz-nos, Maria, que viste no caminho?” Um túmulo vazio? Como se pode acreditar numa Presença a partir de uma ausência?

Não sei se a nós, nesta manhã de Páscoa, é dado entender muito mais do que foi dado aos discípulos: o túmulo está vazio. Aquele a Quem procuramos não está aqui. E, no entanto, hoje como então, o vazio deste túmulo está efervescente de vida… A ausência do Ressuscitado é, paradoxalmente, a sua Presença. Porque Jesus não ressuscitou como Lázaro ou como a filha de Jairo, recuperando a sua vida carnal e os limites do tempo e do espaço. Jesus ressuscitou como as primícias da Nova Criação e, dois mil anos depois, ainda estamos a procurar entender o que isto significa.

“Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura”. Há tanto por entender, quando tomamos em oração a Palavra de Deus e nela meditamos! Os tempos que vivemos já foram preditos pelos profetas de outros tempos, tal como a ressurreição de Jesus o fora. Mas para nós, que os vivemos na primeira pessoa, são sempre novos, estranhos, incompreensíveis. Resta-nos a fé. Acreditar sem nada entender. Adentrarmo-nos no túmulo vazio porque está cheio de Vida.

“Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte.” Jesus não deixou nenhum gesto ao acaso, nenhum sinal de falta de tempo ou de desleixo. Penso no cuidado com que, todos os dias, dobro e arrumo a roupa dos meus filhos, ajeitando as suas gavetas, procurando que nada fique desordenado… Fiquemos descansados: a aparente ausência do Ressuscitado nesta nossa manhã de Páscoa foi cuidadosamente preparada por Ele mesmo, e cada detalhe esconde o seu carinho, o seu cuidado.

“Vi o sepulcro e vi a glória, vi o sudário e a mortalha”… Onde estão, hoje, os indícios da Páscoa? Nestes nossos tempos difíceis, onde a pandemia e a apostasia se misturam, que indícios encontramos de que a ausência do Ressuscitado se faz Presença? Penso em todos os profissionais de saúde, que dão a vida, vencendo o medo de serem contaminados e o cansaço sem trégua; penso nos sacerdotes, que duplicam a oração e procuram formas criativas de não perderem o “cheiro a ovelha” que os define; penso nas famílias, que crescem como Igrejas Domésticas, recuperando a herança hebraica contida nas Escrituras, que lhes ensina a “celebrar as festas e os sábados”, e a transformar a refeição familiar em encontro divino. São pequenos indícios pascais, os que nos tornam mais solidários, mais orantes, mais corajosos. “Fazei isto em memória de Mim” (1Cor 11, 24).

“Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra. Porque vós morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus,” diz S. Paulo. Nos nossos tempos, Deus parou o mundo, ao permitir que uma criatura microscópica nos fizesse travar a fundo. De um dia para o outro, as coisas da terra foram-nos retiradas. Os cafés, os centros comerciais, os casinos, as discotecas, tudo nos ficou vedado. De um dia para o outro, vemo-nos fechados em casa, cada um com a sua família, frente a frente com a vocação a que fomos chamados.

É a oportunidade divina de nos afeiçoarmos às coisas do alto. É “o tempo de decidir o que conta e o que passa, de separar o que é necessário daquilo que não o é. É o tempo de reajustar a rota da vida rumo a Ti, Senhor, e aos outros”, rezou o Papa Francisco na sua memorável homilia daquele fim de tarde extraordinário, quando a bênção urbi et orbi nos alcançou a partir da solidão de uma praça deserta – outro “túmulo vazio” e, também ele, prenhe de vida… Separar, na Bíblia, significa santificar.

A Páscoa deste ano de 2020 não é semelhante a nenhuma outra. Hoje não correremos à igreja para cantar aleluias. Hoje não “comemos e bebemos com Ele”. Hoje não abriremos a porta ao compasso, e muito menos beijaremos a cruz pascal. Hoje não partilharemos a mesa com a família alargada, nem saborearemos as iguarias das avós. Hoje não encheremos as praças, os parques, as praias e os campos com a nossa conversa animada.

Mas hoje é Páscoa. Inquietante, cheia de perguntas e sem respostas. Como a primeira.

Ainda não entendemos as Escrituras? Se o túmulo está vazio, é porque Ele anda por aí…

Aleluia!

 

2 Comments

  1. José Alberto Borges Brizida

    Bela mensagem de Cristo vivo

  2. Lindo como sempre!

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